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Última chamada; o orelhão que conta histórias do passado entra em fase de extinção

No bairro Vida Nova, em São Marcos, persiste o símbolo da comunicação pública que dominou décadas antes da era dos celulares, como marco da memória urbana e da transformação das telecomunicações, enquanto o país caminha para a desativação definitiva desses aparelhos até 2028.

Atualizado em 22/01/2026 às 15:01, por Angelo Batecini.

Orelhão clássico desgastado pelo tempo instalado no bairro Vida Nova, em São Marcos, com a concha descascada e o telefone público ainda visível ao longo da rua de paralelepípedos.

O orelhão do bairro Vida Nova, em São Marcos, permanece intacto como símbolo da comunicação pública de décadas passadas, enquanto os telefones públicos tradicionais se aproximam da desativação definitiva prevista até 2028. Foto: São Marcos Online.

No acesso ao bairro Vida Nova, em São Marcos, um orelhão solitário resiste ao tempo. Sua carcaça em fibra, desgastada pelo sol e pelas chuvas, guarda ainda o traço inconfundível de uma época em que a comunicação não estava na palma da mão, e sim pendurada em uma cabine pública nas ruas da cidade.

Até poucas décadas atrás, esse tipo de telefone era parte essencial do cotidiano. Estudantes ligavam para avisar que chegariam atrasados; trabalhadores faziam chamadas rápidas para receber recados; viajantes buscavam informações essenciais. Para muitos, era o primeiro telefone que conheciam fora de casa, um indicativo de conexão com o mundo.

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O orelhão do Vida Nova ainda conserva seu formato clássico: a casca grande, em forma de concha, que protegia o aparelho contra chuva e vento, com suporte em um pilar de metal azul e o telefone com fone e teclado visíveis. No entanto, a pintura já descascou, as bordas estão enferrujadas e o silêncio ao redor contrasta com o burburinho que costumava envolvê-lo em seus dias de maior uso.

Um símbolo urbano em transição

Nos anos 1970 e 1980, com a expansão do Serviço Telefônico Fixo Comutado (STFC), orelhões tornaram-se parte da paisagem urbana brasileira. Eles estavam em cada bairro, praça e rua movimentada, eram os pontos de comunicação disponíveis para quem não tinha telefone fixo. Por décadas, foram presença constante no cotidiano das pessoas.
Com o avanço e a massificação dos telefones celulares nos anos 2000, a necessidade de usar orelhões diminuiu drasticamente. Lojas que vendiam fichas telefônicas desapareceram; operadoras reduziram a manutenção dos aparelhos e, hoje, muitos já foram removidos das ruas ou se tornaram apenas peças de um passado recente.

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No plano regulatório, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) determinou que os orelhões deixem de ser obrigatórios gradualmente até o final de 2028, especialmente porque a telefonia móvel e os serviços digitais de voz já alcançam grande parte da população. Ainda assim, há exceções: em localidades sem cobertura mínima de telefonia móvel, alguns aparelhos poderão permanecer até o fim desse prazo, garantindo uma forma básica de comunicação, especialmente em emergências.

Memórias guardadas no metal

Para moradores mais antigos, o orelhão do Vida Nova é lembrança afetiva. “Era aqui que eu ligava para casa quando saía para trabalhar”, diz um vizinho que passou pelo local durante a manhã. “Lembro dos fins de tarde, esperando a ficha acabar para poder voltar para casa.”

Outros moradores ainda lembram de histórias curiosas: aquela ligação importante que só dava certo ali, a senha que só funcionava naquele aparelho, ou a correria para encontrar um orelhão disponível em dia de chuva.

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O futuro de um ícone urbano

Apesar de sua aparência desgastada, o orelhão ainda permanece de pé. Ele serve como um marco histórico das comunicações públicas, um lembrete tangível de como as interações humanas evoluíram na última geração. Para o jornal São Marcos Online, ele é mais do que metal e fios: é um símbolo vivo da memória coletiva da cidade.

Enquanto a cronologia regulatória caminha para a retirada definitiva desses equipamentos das ruas, moradores e visitantes do Vida Nova ainda podem cruzar com esse orelhão e, por um instante, imaginar como era o mundo antes dos smartphones.