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Pela primeira vez em quase um século, Festa da Uva terá distribuição de uva orgânica; projeto nasceu em São Marcos

Iniciativa apresentada pela produtora são-marquense Carla Suliani garante, pela primeira vez em quase 90 anos, a distribuição de uva orgânica na Festa Nacional da Uva e projeta a agricultura orgânica da Serra Gaúcha para o cenário nacional.

Atualizado em 12/02/2026 às 13:02, por Angelo Batecini.

Carla e Vanderlei Suliani posam em meio ao parreiral de uvas orgânicas em São Marcos, ao lado de um trator e de uma caixa com cachos recém-colhidos.

Carla e Vanderlei Suliani, produtores de uva orgânica em São Marcos, são protagonistas da iniciativa que leva, pela primeira vez, uvas cultivadas em sistema orgânico para distribuição na Festa Nacional da Uva. Foto: Arquivo pessoal.

Pela primeira vez em cerca de 90 anos de história, a tradicional Festa Nacional da Uva, em Caxias do Sul, terá distribuição oficial de uva orgânica ao público. O marco histórico nasce de uma iniciativa apresentada por uma produtora de São Marcos: Carla Rodrigues Dal Prá Suliani, referência regional na viticultura orgânica e integrante ativa do movimento agroecológico da Serra Gaúcha.

A distribuição ocorrerá no dia 26 de fevereiro, nos Pavilhões da Festa da Uva e também no Desfile Cênico, dentro da programação dedicada à produção orgânica e à agroecologia. No mesmo dia, será lançado o PNAE Agroecológico, ampliando o debate sobre alimentação saudável e fortalecimento da agricultura familiar.

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Uma ideia que saiu do interior e chegou ao maior palco da vitivinicultura gaúcha

A proposta começou a ser construída em 30 de outubro de 2025, em um almoço entre Carla, o marido Vanderlei e o secretário municipal da Agricultura de Caxias do Sul, Rudimar Menegotto. Carla apresentou formalmente um projeto defendendo a inserção da uva orgânica na festa.

“Eu pensei: por que não tem orgânico na Festa da Uva? Está na hora. A festa tem visibilidade nacional. Precisamos abrir espaços para o nosso mercado”, relata Carla.

A confirmação veio em 17 de dezembro, quando a Secretaria oficializou que a ideia havia sido aceita. Em janeiro, foram definidos volumes e valores. A partir daí, iniciou-se a logística de entrega.

Até o momento, Carla já levou três toneladas de uva orgânica para Caxias e deverá completar aproximadamente quatro toneladas.

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O movimento orgânico ganha espaço em um evento de 130 toneladas

A Festa da Uva distribuirá cerca de 130 toneladas da fruta em 2026. Desse total, aproximadamente oito toneladas serão orgânicas, um percentual ainda pequeno, mas simbólico e estratégico.

“Do nada para um percentual é um excelente começo. Agora ninguém segura. Outros viticultores vão ficar atentos a esse movimento”, afirma Carla.

Segundo o engenheiro agrônomo da SMAPA, Dalcionei Pazzin, a menor oferta orgânica se deve aos desafios de certificação e escala. Já o secretário Rudimar Menegotto reforça que a iniciativa representa avanço institucional:

O movimento iniciado a partir da sugestão de Carla é pioneiro e abre caminho para ampliar a presença da produção orgânica nas próximas edições da festa, valorizando agricultores que optam por sistemas sustentáveis.

Os produtores envolvidos nesta edição incluem:

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  • Lori Rossi (Caxias do Sul)
  • Vítor Augusto Pistorello (Caxias do Sul)
  • Carla Rodrigues Dal Prá Suliani (São Marcos)

O valor pago é de R$ 6,50 por quilo, dentro da política de incentivo à produção diferenciada.

Protagonismo técnico e institucional

Carla não é apenas produtora. Ela integra o Comitê de Ética do Núcleo Serra Gaúcha da Rede Ecovida, participa da ECOCAXIAS e é representante suplente na Comissão de Produção Orgânica do RS (CPORG). Em São Marcos, atua no grupo Aproces, que reúne três viticultores comercializando uvas orgânicas para:

  • São Paulo
  • Região Metropolitana de Curitiba
  • Litoral de Santa Catarina

“Produzir é possível. O desafio é mercado. A gente precisa se mostrar, falar sobre o produto, visitar clientes, construir canais.”

Ela também desenvolveu pesquisa sobre mercado durante o mestrado e apresentará o case da Festa da Uva no 1º Congresso Brasileiro Técnico-Científico de Agricultura Orgânica, em março, em Campinas (SP).

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“Vou levar essa história que muda um evento nacional. É um case de construção de mercado.”

Orgânico x Agroecologia: o que está em jogo

A distribuição da uva orgânica estará vinculada ao lançamento do PNAE Agroecológico, iniciativa que busca avaliar e fortalecer a transição agroecológica da base produtiva local, promovendo alimentação mais saudável nas escolas.

Importante destacar a diferença conceitual:

Produção orgânica: substitui insumos químicos por naturais, seguindo certificações rigorosas.

Agroecologia: visão sistêmica que integra sustentabilidade ambiental, biodiversidade e aspectos sociais.

A presença da uva orgânica na festa dialoga diretamente com essa transição produtiva.

Uma estratégia de posicionamento e mercado

Carla é direta ao explicar que o objetivo nunca foi apenas vender:

“Minha ideia não era nem tanto vender, mas abrir espaço, trazer essa discussão, essa vitrine.”

A produção orgânica exige reputação, rastreabilidade e relacionamento:

“As pessoas querem saber quem é o produtor, onde é a produção, há quanto tempo está no mercado. A gente constrói marca há anos.”

A marca Suliani Orgânicos já é reconhecida em mercados estratégicos. Estar na Festa da Uva amplia essa exposição:

“Quem compra nossa uva em São Paulo e ouve falar que tem orgânico na Festa da Uva vai saber que estamos lá também.”

Impacto regional: o cenário dos orgânicos na Serra Gaúcha

A Serra Gaúcha possui produção orgânica expressiva, mas enfrenta:

  • Mercados retraídos
  • Dificuldade de ampliação de canais
  • Necessidade constante de educação do consumidor

Carla destaca que muitos produtores têm capacidade de aumentar a produção, mas não o fazem por insegurança comercial.

A inserção na Festa da Uva representa:

  • Validação institucional
  • Visibilidade nacional
  • Fortalecimento do movimento agroecológico
  • Estímulo para novos produtores migrarem ao sistema

Um marco histórico o evento e toda região

Depois de nove décadas, a Festa da Uva passa a incorporar oficialmente o orgânico em sua distribuição pública. O gesto é simbólico, político e econômico.

E tem origem clara: uma produtora que decidiu provocar o sistema.

“Isso é marcar a história da festa. Nunca antes teve.”

Para São Marcos, o fato também é estratégico: uma iniciativa local altera o roteiro de um dos maiores eventos da vitivinicultura brasileira.

A partir de 2026, a Festa da Uva não será mais apenas vitrine da produção convencional, passa a ser também palco da agricultura orgânica da Serra Gaúcha.