Exclusivo: Relatório de 2025 revela gargalos no sistema de água em São Marcos; Procon e Agesan-RS iniciam novas vistorias em 2026
Fiscalização da Agesan-RS identificou 35 irregularidades no sistema de abastecimento de São Marcos, com destaque para a Estação de Tratamento operando com quase o dobro da capacidade projetada, falhas graves de segurança elétrica, água fora dos padrões de potabilidade em períodos críticos e reservatórios com laudos de limpeza vencidos há mais de um ano.
Vista das estruturas internas da Estação de Tratamento de Água (ETA) de São Marcos. Relatório técnico da Agesan-RS aponta que a unidade opera com vazão média de 60 litros por segundo, quase o dobro da capacidade para a qual foi projetada, o que compromete etapas do processo de tratamento. Fotos: Agesan/divulgação.
O sistema de abastecimento de água de São Marcos atravessa um período de alerta e transição. Embora a Corsan/Aegea Saneamento tenha anunciado melhorias ao longo de 2025, como a perfuração e ativação de novos poços, estratégia frequentemente defendida pelo gestor Lutero Cassol em entrevistas, dados técnicos oficiais analisado pela reportagem do São Marcos Online, revelam um cenário preocupante no fechamento do último ano.
O Relatório Técnico de Fiscalização nº 2240/2025, elaborado pela Agência Reguladora Intermunicipal de Saneamento do Rio Grande do Sul (Agesan-RS), aponta 35 não-conformidades no sistema de água do município, envolvendo desde sobrecarga estrutural na Estação de Tratamento de Água (ETA) até falhas graves de higiene, segurança operacional e controle de perdas.
Na última semana, em 21 de janeiro, a responsável pelo Procon de São Marcos, Rochele Ascari, acompanhou fiscais da Agesan-RS em uma nova agenda técnica nas instalações da concessionária. O grupo também foi recebido pela prefeita em exercício, Fabiana Dutra de Oliveira, para tratar da qualidade dos serviços. Os dados desta vistoria de 2026 ainda são sigilosos, mas a expectativa é verificar se as exigências feitas ao fim de 2025 começaram, de fato, a ser cumpridas.
ETA opera com quase o dobro da capacidade projetada
O ponto mais sensível do relatório está na Estação de Tratamento de Água (ETA). Projetada para tratar 35 litros por segundo (L/s), a unidade encerrou 2025 operando com vazão média de 60 L/s, uma sobrecarga de quase 100% acima da capacidade nominal.
Segundo a fiscalização, essa condição tem provocado falhas recorrentes no processo de tratamento, como formação de material flotado nos decantadores e passagem de flocos de sujeira diretamente para os filtros. O cenário se agravou nos meses de outubro e novembro de 2025, quando um dos três filtros da ETA estava em manutenção, reduzindo a capacidade de filtração para apenas 67%.
Registros operacionais analisados pela Agesan-RS indicam que, em agosto de 2025, a água distribuída chegou a apresentar turbidez e alumínio residual fora dos padrões de potabilidade, situação considerada crítica pelos fiscais.
Reservatório do Henrique Pante é o “calcanhar de Aquiles”
A fiscalização também confirmou uma queixa recorrente da população e da própria Prefeitura: as interrupções frequentes no abastecimento, especialmente na região atendida pelo reservatório R-2 Henrique Pante.
Por ser um reservatório apoiado e localizado em área de topografia acidentada, o R-2 é, tecnicamente, o primeiro a sofrer com quedas de pressão e falta de água, além de ser o último a ter o fornecimento restabelecido após manutenções ou falhas no sistema.
Higiene, segurança e perdas sob suspeita
Além dos problemas estruturais, o relatório da Agesan-RS aponta falhas consideradas graves na gestão de ativos, segurança do trabalho e controle sanitário:
Limpeza de reservatórios: Unidades como R-5 (Progresso), R-6 (Celestino Magrim), R-7 (Industrial), R-9 (Plátanos), R-10 (Vida Nova) e R-11 (Colina Sorriso) apresentaram laudos de limpeza vencidos há mais de 12 meses ou sequer tiveram comprovação enviada à agência reguladora.
Segurança operacional: Foram encontrados extintores de incêndio vencidos no laboratório da ETA e fiação elétrica exposta ou submersa em Estações de Bombeamento de Água Tratada (EBATs), elevando o risco de acidentes e interrupções abruptas no sistema.
Vazamentos e perdas: O índice de perdas do sistema fechou 2025 em 16,98% ao mês. A fiscalização identificou vazamentos em tubulações de água bruta, válvulas de elevatórias e até no sistema de preparação de produtos químicos da ETA, ampliando riscos operacionais e ambientais.
Poços existem, mas potencial ainda não é totalmente aproveitado
O relatório confirma investimentos em mananciais subterrâneos, alinhados ao discurso da concessionária. O poço SMC-08 já está em operação, embora não constasse formalmente nos anexos do contrato de concessão até a fiscalização.
Já o poço SMC-11, que poderia aliviar significativamente a sobrecarga da ETA, permanecia inativo ao final de 2025 exclusivamente por falta de ligação à rede de energia elétrica, situação que chamou a atenção dos fiscais por se tratar de um entrave administrativo, e não técnico.
Prazos, multas e expectativa para 2026
A Corsan/Aegea tem prazos rigorosos para sanar as 35 não-conformidades, sob risco de multas diárias previstas no contrato de concessão e na regulação da Agesan-RS.
A comunidade de São Marcos aguarda agora a divulgação do relatório referente à vistoria de janeiro de 2026, que deverá indicar se as medidas emergenciais exigidas no fim do ano passado começaram a ser implementadas.
O São Marcos Online seguirá acompanhando o desdobramento das fiscalizações junto ao Procon e à Agesan-RS, buscando esclarecimentos sobre:
- quais sanções podem ser aplicadas em caso de descumprimento das irregularidades;
- por que a falta de energia ainda impede a ativação do poço SMC-11;
- e quais os impactos à saúde pública da manutenção de reservatórios com limpeza vencida.












