Viva a Uva (2): São Marcos é a terra do suco e Campestre, a do vinho

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Vinícolas Poggere e Pérgola abrem suas portas ao São Marcos Online e revelam segredos dos processos produtivos que transformam a uva em deliciosos sucos e vinhos que conquistam o Brasil e o mundo

A colheita da uva movimenta as vinícolas de São Marcos (maior produtor de suco de uva integral do Brasil) e Campestre da Serra (município onde é produzido o vinho mais vendido no país). Em fevereiro, elas entram em frenética atividade: são caminhões carregados de cachos que chegam a todo instante. As uvas descarregadas pelos agricultores são imediatamente transformadas em sucos e vinhos, num processo produtivo que envolve pessoas e um complexo tecnológico de máquinas que ficam, literalmente, a todo vapor (um inebriante vapor com aroma de uva, diga-se de passagem).

– Nessa época o trabalho é forte. São dois meses em que trabalhamos mais de 12 horas por dia – comenta o Engenheiro Ambiental Rodrigo Poggere: filho de João Poggere, um dos seis irmãos que comandam a empresa, Rodrigo é um dos administradores da Vinícola Poggere, fabricante do suco Dom Celesto (confira abaixo).

Mas se na Poggere, em São Marcos, o trabalho é forte, na Pérgola, em Campestre, “o bicho pega pra valer”.

– Na safra o trabalho pega mesmo. Não dá tempo pra nada – observa o Enólogo Sidnei Benvegnu, da Vinícola Campestre da Serra, produtora do vinho Pérgola, o mais consumido no Brasil desde 2014. – Fomos eleitos pelo quinto consecutivo – revela o Gerente de Produção da vinícola campestrense, que neste ano inaugura sua nova sede, em Vacaria: numa área de 84 hectares, a empresa dos irmãos Zanotto (João, Irineu e César são os diretores) fundada em 1967 está construindo um parque industrial de 20 mil m², quase dez vezes maior que o de Campestre, que possui aproximadamente 2,5 mil m².

Conforme Sidnei, a construção da nova sede – que iniciou em 2015 e será inaugurada na metade do ano – está relacionada a necessidade de espaço e a uma oportunidade de turismo.

– Lá haverá produção de uvas para vinhos finos e oliveiras – observa.
Em Vacaria funcionará o setor de engarrafamento do vinho, abrindo espaço em Campestre para que a Vinícola amplie sua capacidade produtiva.

– Vamos ampliar nossa capacidade de estocagem com mais pipas (tanques de aço inox) – destaca Sidnei, salientando que o recebimento da uva e o processo de vinificação seguirão ocorrendo em Campestre, com o vinho sendo transportado em caminhão-tanque para engarrafamento em Vacaria, de onde será levado Brasil afora.

Ele informa que a atual capacidade de estocagem da vinícola é de aproximadamente 20 milhões de litros. O volume é inferior a venda, que gira em torno de 25 milhões de litros por ano.

– Em 2015 foram comercializados 27,5 milhões, mas neste ano a previsão é 25 milhões de litros de vinho e uns 2 milhões de litros de suco – aponta, salientando que para 2019 a vinícola projeta aumento de 10% nas vendas em comparação a 2018.

‘Esse vinho caiu no gosto dos brasileiros’: Vinícola responde por mais de 50% do PIB campestrense

Entre os tipos de vinhos fabricados pela Vinícola Campestre da Serra, destaque para o Pérgola Tinto Suave, o vinho mais vendido do Brasil e que responde por 22 milhões de litros dos 25 milhões produzidos anualmente (os demais 3 milhões de litros ficam entre os coolers, espumantes e tintos secos).

– Esse vinho caiu no gosto dos brasileiros. Porque o consumidor brasileiro quer vinho suave – comenta o enólogo, informando que os principais consumidores são o estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia. – As vendas são principalmente do Rio pra cima e o Nordeste é o maior consumidor – destaca, explicando que neste nicho de mercado o Pérgola acaba não sofrendo concorrência de vinhos finos importados que chegam do Chile a preços impraticáveis para a indústria nacional, motivo pelo qual algumas vinícolas vem enfrentando dificuldades.

– Nosso mercado está cada vez melhor e isso acontece porque temos clientes fiéis – comenta Sidnei, informando que a empresa conta com 14 representantes comerciais e 12 distribuidores.

Para o município, a vinícola Campestre da Serra representa emprego e renda: contando com quase 100 funcionários, responde por mais de 50% do PIB. Segundo Sidnei, a vinícola absorve em torno de 60% da uva produzida em Campestre, onde a área com parreiras gira em torno de 1,2 mil hectares, com uma produção anual entre 25 e 30 milhões de quilos.

– Neste ano deu menos, porque o granizo (de outubro de 2018) pegou forte e a perda será de mais de 8 milhões de quilos – comentou, ressaltando que a vinícola recebeu cerca de 7 milhões de quilos a menos de uvas em 2019.

Entre os fornecedores também estão agricultores são-marquenses.
– Temos aproximadamente 740 famílias cadastradas e umas 100 são de São Marcos, de onde pegamos em torno de 4 milhões de quilos – informou, citando que também há fornecedores de Ipê, Antônio Prado e Monte Alegre dos Campos.

Sidnei destaca que a qualidade da uva entregue em fevereiro “aceitável e dentro da normalidade”. Pelo que disse, a bordô obteve graduação em torno de 14.

– Na bordô tivemos uma quebra de uns 40% no recebimento – revelou, informando que a Isabel começara a ser entregue a partir de março.

Confira no vídeo abaixo os detalhes do processo de produção do vinho mais vendido no Brasil.

Um suco, várias marcas: Poggere revela segredos de Don Celesto, que conquistou o Oriente

O aroma da uva recebe o visitante que se aproxima da Vinícola Poggere, em São Marcos. Se o recente asfaltamento do trecho que dá acesso a empresa situada no bairro Michelon deixou o caminho ainda mais belo, o perfume que emana dos 65 tanques de inox indicam que ali dentro há algo valioso. De fato, há mesmo: é nesses tanques (as populares pipas), que Poggere armazena o suco que conquistou não só o Brasil, mas também o Oriente.

João Poggere, filho de Celestino, com esposa Mari Janete e filhos Rodrigo e Carina: uma família ligada à uva

– Hoje nosso suco é consumido em Honk Kong (marca Brazini), Cingapura (Grapini) e no Kuwait Casa Latini). E em breve também em Abu Dhabi, para onde já enviamos amostras – comentou, salientando que as exportações iniciadas há quatro anos já respondem por mais de 10% do faturamento da empresa. – Em média embarcamos (pelo porto de Rio Grande) um container com 10 mil litros por mês – informa.

Poggere conta que houve alguma demora para conquistar os novos mercados.
– Mas depois que saiu o primeiro, convenceu – observou, destacando que nesses países o suco (vendido a cerca de R$ 50 o litro) é comercializado em casas especializadas em produtos naturais voltados à saúde.

No Brasil, onde o litro custa em torno de R$ 15, o suco é comercializado para diversos estados, principalmente na região sudeste. É dentro do país que estão concentradas as principais vendas.

– Em 2018, foram em torno de 1,8 milhões litros no mercado nacional e uns 120 mil no exterior – informou, ressaltando que neste ano houve queda na produção em virtude da menor oferta de uva. – Em 2019 produziremos em torno de 1,2 milhão de litros, aproximadamente 500 mil a menos – apontou, salientando que em 2017 foram produzidos 1,7 milhão de litros.

Como lembra Rodrigo, o suco foi um segmento em que a vinícola (construída ao lado da antiga casa do patriarca Celestino Poggere) ingressou com tudo há cerca de 15 anos, quando parou de fabricar vinho.

– Desde 2005 produzimos exclusivamente sucos integrais – comentou, ressaltando que naquele ano a produção de vinho a granel já não valia mais a pena.

Além do suco de uva (tinto e branco) a vinícola produz sucos integrais de maçã, laranja e tangerina. E, também, sucos mistos de frutas como goiaba, mirtilo, amora, morango e framboesa.

– Hoje a empresa é especializada no atendimento à demanda de marcas próprias. São 48 marcas produzidas para atender o mercado nacional, mais 3 desenvolvidas para o exterior – salienta, informando que, do suco comercializado no mercado interno, 10% são da marca Dom Celesto e 90% com os demais rótulos.

Rodrigo explica que a terceirização viabilizou acesso ao mercado em grande escala, eliminando custos operacionais e logísticos. Isso permitiu a empresa focar na fabricação, que está cada vez mais aprimorada: como a vinícola é de pequeno porte e de cunho familiar (são 7 funcionários registrados e alguns safristas), há maior controle do processo produtivo.

– Suco que nem esse não tem igual – atesta o casal Jorge Luiz Gomes e Lorena Fiamengui. Eles costumam comprar caixas de Dom Celesto diretamente na Vinícola e no dia em que o São Marcos Online visitou a empresa lá estavam os dois, enchendo o porta-malas. – Isso aqui faz muito bem à saúde. É bom pro coração e pra tudo – aponta Jorge Luiz.
Poggere confirma que o apelo à saúde fomenta o mercado.

– O segmento do suco de uva integral é um mercado que se encontra aquecido em função das necessidades de alimentação saudável – pondera, assegurando que por trás das 51 marcas está o mesmo suco. – É o mesmo produto. A produção é nossa responsabilidade e qualquer coisa que não der certo quem responde sou eu – frisou.

Confira no vídeo abaixo detalhes do processo produtivo do suco Dom Celesto na Vinícola Poggere, em São Marcos.

‘Agricultor é quem garante nosso negócio’

Uma das premissas da Vinícola Poggere é a valorização do agricultor. Segundo Rodrigo, os pagamentos são efetuadas no máximo até abril e maio.
– Fechamos a safra e já pagamos – assegura.

Além disso, a empresa faz um acompanhamento dos 128 fornecedores cadastrados, dos quais 90% são de São Marcos e o restante, de municípios como Flores da Cunha, Caxias e Garibaldi.

– Precisamos dar condições para o produtor investir e ter uva de qualidade. Porque a qualidade do suco depende muito da uva: ao contrário do vinho, que é elaborado e onde conta muito o trabalho do enólogo, o suco é produzido, contanto muito a matéria-prima (uva), com o índice de frutose (graduação) sendo fundamental – pondera.

Segundo Rodrigo, na fabricação do suco Dom Celesto há 50% de uva bordô (que dá corpo e cor) e 50% de Isabel (que dá sabor e rendimento).

– Neste ano, em decorrência de problemas climáticos, a uva não está com uma qualidade de excelência. Mas ainda assim apresenta as qualidades mínimas para resultar num produto que atenda a demanda dos consumidores – avalia Poggere, informando que, em média, a Bordô (comprada por R$ 1,23 ao Kg com grau 15 e R$ 1,17 com grau 14) obteve graduação em torno de 14.

Responsável por efetuar o trabalho de acompanhamento dos produtores ao longo do ano, a Engenheira Agrônoma Carina Poggere destaca que a Bordô até mesmo superou suas expectativas, mesmo que tenha ficado bem distante da estupenda qualidade alcançada na última safra, quando a graduação ficou entre 15 e 17.

– Foi um ano difícil para o produtor trabalhar. Choveu muito na floração e depois veio aquele granizo que pegou o grão formando, machucando o cacho. Diante disso tudo a qualidade da bordô até que ficou num bom patamar – avaliou, indicando que a variedade Isabel não conseguiu se desenvolver muito bem. – Safra como aquela de 2017/2018 vai ser difícil de ver outra – pondera Carina Poggere.

 

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