Resenha sobre o Documentário: Janela da Alma, ano 2001, direção de João Jardim e Walter Carvalho

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Imagem: internet

Há quem acredite que a visão se limita a tudo que enxergamos e há, também, quem acredite que a visão é apenas detalhe. A percepção do mundo não é necessariamente percebida apenas pelos olhos. Enxerga-se também pela sensibilidade, pelas emoções e pela capacidade, que todos temos, de enxergar além do que se vê. Como prova desse argumento, temos os deficientes visuais. Mesmo sem verem as pessoas, as luzes, os dias e as formas; sabem diferenciar as pessoas com quem se relacionam, sabem chegar certamente aos lugares que desejam, sabem distinguir quando alguém está bem ou está mal emocionalmente e sabem até ter certa noção das horas do dia.

Os entrevistados deram à proposta do documentário uma abordagem bem profunda. Alguns são atores, outros escritores, políticos, fotógrafos ou mesmo filósofos. Suas abordagens ultrapassaram a simples reflexão sobre a sensibilidade e trataram do entendimento humano, das capacidades e incapacidades do pensamento. O documentário concentra-se na sensibilidade e mais especificamente no olhar humano. Os olhos são a janela da alma, são por onde a alma vê o mundo e o mundo vê alma. Além da visão, é claro, existem os outros sentidos, que também podem ser, por analogia, janelas. Neste documentário, o vereador de Belo Horizonte, Arnaldo Godoy, que é cego, revela que substituiu sua visão por outras formas de perceber o mundo, através de seus outros sentidos, mais aguçados que o normal.

José Saramago, ganhador do prêmio Nobel de Literatura, o escritor indaga que, se Romeu, da peça Romeu e Julieta, de William Shakespeare, tivesse os olhos de um falcão, provavelmente não se apaixonaria por Julieta. Ela, seguramente, seria para ele uma figura nada agradável, pois o falcão enxerga muito mais longe que o homem, fazendo com que Romeu enxergasse Julieta muito de perto, como se utilizasse uma lente de aumento. O que Saramago pretendeu com a fala, foi dizer que uma diferente percepção sensível do mundo, diferente em intensidade, no caso específico do exemplo, muda a maneira de entendê-lo. Julieta continuaria sendo Julieta, mas Romeu, com seus novos olhos de falcão, não se apaixonaria por ela.

Saramago ainda contribui mais ao observar que estamos, e de fato estamos, na era do audiovisual, que somos bombardeados de estímulos que afetam os nossos sentidos a todo instante. Temos acesso a centenas de canais de TV, dezenas de revistas e jornais, dentre outros veículos de informação formadores de opinião. Tudo isso contribui para que vejamos o mundo, segundo o próprio escritor, como os prisioneiros no mito da caverna Platão. As imagens que nos mostram da realidade substituem a realidade. O homem aprendeu que pode aproveitar a capacidade limitada do conhecimento humano, que não tem condições de ir muito longe se não for alimentado de sensações, para colocar frente à sociedade diferentes realidades fabricadas. São tantas as informações, que esses “prisioneiros da caverna” nem ao menos têm tempo para processá-las e tomam por verdade a sensibilidade, deixando de lado as demais faculdades, do entendimento e da razão.

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