O desafio de ser jogador de futebol: ‘Alegria ver esses meninos correndo atrás de um sonho que pode transformar suas vidas’

0
1550

Após destacar carreiras de são-marquenses que venceram obstáculos e se tornaram atletas profissionais – Airton Michelon (Pelotas), Kadu Bombana (Grécia) e Mica Lazzarotto (Canadá) -, segunda parte da reportagem traz depoimentos dos educadores físicos Jhosef Darllã de Jesus, da escolinhas de futebol, e Kadu de Rosso, da AMSM. Confira comentários de Juninho, criador da Liga São-Marquense de Futebol, e Geraldo Sandri, idealizador do Projeto Crescimento. E acompanhe entrevista com o Diretor Municipal de Esportes Rui Borba, que fala do calendário de competições 2019 e do que falta para o esporte (e o futebol) de São Marcos ser ainda mais desenvolvido e qualificado: ‘Parceria entre clubes, prefeitura, atletas, comunidade e empresas’

“Brasil está vazio na tarde de domingo, olha o sambão aqui é o país do futebol”. O verso da música “Aqui é o país do futebol”, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, [https://www.ouvirmusica.com.br/elis-regina/424120/] expressa bem a paixão nacional pelo esporte bretão. Porque é assim (país do futebol) que o Brasil é mundialmente conhecido. Mais que o carnaval – celebrado no sudeste, norte e nordeste, mas praticamente negligenciado em diversas cidades do sul -, o futebol é adorado do “Oiapoque ao Chuí”, sendo praticado “do Rio da Prata ao Amazonas”.

A paixão nacional não tem fronteiras e está presente no dia-a-dia das pessoas. Porque o futebol é um traço marcante da identidade do brasileiro, seja ele gaúcho, paulista, carioca, baiano, mineiro ou pernambucano (para citar 6 Estados onde a paixão popular por alguns clubes é intensa). E, como diz a canção que se imortalizou na voz de Elis Regina: “Nesses 90 minutos de emoção e alegria, esqueço casa e trabalho / A vida fica lá fora, o dinheiro fica lá fora, a família fica lá fora, o salário fica lá fora, e tudo fica lá fora (porque) aqui é o país do futebol…”

De fato, é assim mesmo que acontece: “ópio do povo” para os críticos, “paixão popular” para os admiradores, o futebol é adorado até pelos que o odeiam. Idolatrado, vai muito além das quatro linhas, fazendo-se presente no âmbito cultural: está nas salas de estar de diversos lares familiares (principalmente nas noites de quarta e tardes de domingo, mas depois da TV à cabo, em quase todos os dias, para não dizer durante o dia todo); e também nas letras das músicas, nas quais as referências ao jogo, em que 22 homens fazem de tudo para colocar a bola dentro do gol, são amplas e irrestritas.

Exemplo clássico é Jorge Ben, que nos anos 1970 (ainda antes de virar Jorge Ben Jor), compôs várias músicas que faziam referência ao esporte bretão. Uma delas é a clássica “Meus Filhos, Meu Tesouro”, do lendário “África Brasil” [https://www.youtube.com/watch?v=rI-zKHpioc4]. A canção inicia com o verso: “Diga lá menino, o que é que você quer ser quando crescer: eu quero ser jogador de futebol…”.

‘Arrepia, limpa a área e sai jogando; zagueiro não pode ser sentimental, tem que ser malandro, sutil e elegante; ter sangue frio, acreditar em si e ser leal’: Jorge Ben fez músicas com futebol e homenageou Zico

Micael Lazzarotto, 25 anos, está a 4 anos no Canadá e atua no Tronto Skill

Outra famosa composição de Jorge Ben ligada ao futebol é a poética “Zagueiro” [https://www.youtube.com/watch?v=4SW4308t88A], na qual o músico discorre sobre características e qualidades de um bom defensor: “Arrepia zagueiro, limpa a área e sai jogando / Ele é um bom zagueiro, é o anjo da guarda da defesa / Mas para ser um bom zagueiro, não pode ser muito sentimental / Tem que ser sutil e elegante, ter sangue frio, acreditar em si e ser leal / Zagueiro tem que ser malandro / Quando tiver perigo com a bola no chão, pensar rápido e rasteiro: ou sai jogando ou joga a bola pro mato, porque o jogo é de campeonato / Zagueiro tem que ser ciumento e ganhar todas as divididas, sem deixar sobra pra ninguém / Tem que ser o rei e o dono da área nessa guerra maravilhosa de 90 minutos…”

Além dessas, há a criativa “Umbabarauma (Ponta de Lança Africano)” [https://www.youtube.com/watch?v=lp9uZKy6H7Y]. “Umbabarauma, Homem Gol / Joga bola, pula, cai, levanta, mete gol / Vibra, abre espaço, chuta e agradece: olha que a cidade toda ficou vazia nessa tarde de domingo só pra te ver jogar…”. E aquela que é, talvez, a música mais conhecida entre as tantas que falam de futebol compostas pelo músico carioca: “Fio Maravilha” [https://www.vagalume.com.br/jorge-ben-jor/fio-maravilha.html], que Jorge Ben compôs ao ídolo flamenguista João Batista Salles (Fio) e na qual está o famoso verso até hoje repetido por narradores brasileiros “Só não entrou com bola e tudo porque teve humildade”: “E novamente ele chegou, com inspiração / Com muito amor, com explosão, com emoção / Sacudindo a torcida aos 33 minutos do 2º tempo / Depois de fazer uma jogada celestial / Tabelou, driblou dois zagueiros, deu um toque e driblou o goleiro / Só não entrou com bola tudo porque teve humildade / Foi um gol de classe onde ele mostrou sua malícia e sua raça / Foi um gol de anjo, verdadeiro gol de placa, que a galera agradecida assim cantava / Fio Maravilha nós gostamos de você, faz mais um pra gente ver…“.

E no repertório do artista também tem a famosa “Camisa 10 da Gávea” [https://www.ouvirmusica.com.br/jorge-ben-jor/86375/], que Ben compôs em homenagem a Zico: “É falta, na entrada da área / Adivinha, quem vai bater / É o camisa 10 da Gávea… / Ele tem uma dinâmica física, rica e rítmica / Seu reflexos lúcidos, lançamentos e dribles desconcertantes / Chutes maliciosos como flashes eletrizantes, estufando a rede num possível gol de placa… / O galinho de Quintino chegou / Com garra, fibra e amor / Pode não ser um jogador perfeito, mas sua malícia faz com que seja lembrado / Pois mesmo quando não está inspirado, ele procura a inspiração / E cada gol, cada toque, cada jogada, é um deleite para os apaixonados pelo esporte bretão…”.

Por que no país do futebol é tão complicado realizar o sonho de ser jogador profissional? Por que, num mercado onde giram milhões, falta dinheiro para trabalhar a base e formar atletas?

A explicação para essa “musicalização do futebol” feita por Jorge Ben é simples: carioca da Madureira, ele (como muitos meninos brasileiros) sonhou em ser jogador de futebol. Inclusive integrou o time infanto-juvenil do Flamengo antes de seguir carreira musical, onde concluiu que seria melhor sucedido; afinal (como dizem), sua intimidade com a bola não era das melhores.

Mas não é apenas o cantor carioca que se valeu do esporte para compor canções: também o vocalista mineiro da banda Skank, Samuel Rosa (outro adorador do futebol que carece de mais refinamento no trato com a bola), fez músicas que abordam o tema. Uma delas é a conhecida “Uma Partida de Futebol”: https://www.youtube.com/watch?v=DBFrd21pMFo “Bola na trave não altera o placar / Bola na área ninguém pra cabecear / Bola na rede pra fazer o gol / Quem não sonhou em ser um jogador de futebol?”,

indaga a última estrofe do primeiro verso da canção, trazendo à tona uma realidade que muitos garotos cultivam dentro de si.

Mas como, no “país do futebol”, pode ser tão complicado realizar o sonho de se tornar jogador profissional? Por que no país onde “a cidade inteira fica vazia na tarde de domingo” os meninos que sonham em jogar futebol precisam enfrentar tantos obstáculos, com o sonho correndo o risco de virar pesadelo? Por que num mundo em que giram milhões, falta dinheiro para as categorias de base e para a formatação de atletas?

São questões que passam pela precariedade dos Centros de Treinamento (CT) de diversos clubes brasileiros (inclusive os da Série A), onde as instalações deixam a desejar, como escancarou o incêndio ocorrido em 8 de fevereiro no “Ninho do Urubu”, o milionário CT do Flamengo, conforme abordou reportagem publicada no último sábado pelo São Marcos Online: O sonho de ser jogador de futebol: ‘Alojamento não tinha colchão, alagava quando chovia e alimentação não era adequada, mas as dificuldades fortalecem’.

A matéria, que enfocou as trajetórias de três são-marquenses que venceram obstáculos e se tornaram atletas profissionais – Airton Michelon, que defende o Pelotas, Kadu Bombana, que joga na Grécia e Mica Lazzarotto, que atua no Canadá – revelou situações curiosas e trouxe à tona diversas questões enfrentadas pelos jovens, levantando indagações sobre as dificuldades vivenciadas pelos garotos que aspiram calçar chuteiras e, um dia, vestir o uniforme de algum grande clube brasileiro ou mundial.

‘Mais parceria entre clubes, prefeitura, atletas, comunidade e empresas’

Em suma, a pergunta que fica (agora que a tragédia que interrompeu o sonho de 13 adolescentes completou um mês sem responsabilização de culpados) é: por que no país do futebol (onde o esporte adorado pelas multidões é celebrado em versos de famosas canções, movimentando milhões) é tão difícil ser jogador profissional?

É para tentar respondê-la – e também para mostrar que na capital gaúcha dos caminhoneiros há interessantes projetos esportivos que necessitam do apoio da comunidade para continuarem sendo desenvolvidos – que o São Marcos Online entrevistou cinco pessoas que exercem (ou exerceram) papel de liderança na comunidade, seja como educador físico, treinador, jogador, incentivador ou agente público.

Confira o que tem a dizer os professores de educação física Jhosef Darllã de Jesus, da escolinhas de futebol, e  Carlos Eduardo de Rosso, da AMSM. E também acompanhe os comentários de Junior Velho, criador da Liga São-Marquense de Futebol, e Geraldo Sandri, idealizador do Projeto Crescimento. E de quebra assista entrevista com o Diretor Municipal de Esportes Rui Borba, que em primeira mão anuncia o calendário de competições promovidas pela prefeitura em 2019, ainda opinando sobre o que falta para o esporte (e o futebol) de São Marcos ser ainda mais desenvolvido e qualificado.

Para Rui – que quando criança sonhou em ser jogador profissional – é preciso mais parceria entre clubes, prefeitura, comunidade, atletas e empresas. E para você, leitor – que assim como nós acredita no potencial educativo do esporte para formação de caráter e formatação de valores éticos e como ferramenta de inclusão social, com oportunidade de crescimento pessoal e profissional -, o que falta para que o esporte e o futebol são-marquenses sejam ainda melhores?

Leia a reportagem. Assista aos vídeos. Pense. E opine…

‘Alegria ver esses meninos correndo atrás de um sonho que pode transformar suas vidas’: professor das escolinhas, Josef revela apoio da prefeitura, que investe R$ 25 mil: ‘Essa gestão deu suporte’

“Há muitas dificuldades para fazer esporte de base. Principalmente a questão do investimento. Programas de incentivo são cortados e a iniciativa privada se faz reticente, fechando os olhos para os benefícios e retornos que pode ter investindo em projetos sociais e esportivos. Outra questão é o pouco incentivo e apoio dos pais.” Foi com essas palavras que o educador físico Jhosef ?, professor das escolinhas de futebol do Atlético RS, respondeu ao São Marcos Online sobre os obstáculos enfrentados por aqueles que almejam desenvolver o esporte no Brasil. Treinador do projeto desenvolvido em São Marcos com apoio da prefeitura, Jhosef comando as aulas que ocorrem três vezes por semana (terças, quintas e sábados) no Estádio Elias Soldatelli. Segundo ele, em torno de 120 crianças e adolescentes entre 5 e 20 anos frequentam o projeto. Desenvolvido há mais de uma década, o projeto nem sempre contou com apoio da administração municipal.

– Temos uma parceria muito boa com a prefeitura, que nos dá grande suporte, com pagamento do meu salário e transporte nos dias de treino. Além disso, eles também emprestam a estrutura do estádio municipal para treinos e jogos e custeiam as inscrições e arbitragem dos jogos dos meninos. Em quase 13 anos de projeto essa gestão foi a única que me apoiou e me deu suporte para fazer o meu trabalho em um bom nível. Sou grato por esse suporte e pela confiança em meu trabalho – salientou.

O Diretor Municipal de Esportes, Rui Borba, salienta a relevância de apoiar o projeto. Ele lembra que o desempenho escolar influencia para o ingresso nas escolinhas.

– É importante investir nas crianças, que podem se tornar pessoas melhores através do futebol. As escolinhas são um trabalho totalmente social: não há custo algum e é aberto a todos, mas o desempenho escolar também faz parte. Desde 2006 esse é o primeiro governo que investe no projeto, com um montante em torno de R$ 25 mil – apontou.

Jhosef entende que o esporte é significativa ferramenta sócio educacional.

– Através do futebol consigo proporcionar outra realidade de vida a esses meninos, trazendo muitos benefícios, valores e aprendizagens. É uma alegria ver eles correndo atrás de um sonho que pode transformar suas vidas – comentou.

Em relação ao incêndio no CT do Flamengo, tragédia que completou um mês neste 8 de março, Jhosef entende que ela foi consequência da situação das categorias de base do futebol brasileiro.

– Foi uma tragédia sem tamanho, vidas e sonhos interrompidos. É difícil analisar ou julgar por inúmeros motivos, pois envolve muitos fatores. Mas de um modo geral o problema é que a base no futebol brasileiro ainda engatinha: falta estrutura, apoio e reconhecimento. Até alguns grandes times da Série A não investem muito na formação do produto caseiro e gastam mais que podem em atletas já formados. Mas, mesmo com todas as dificuldades existem trabalhos muito bem feitos – avalia Jhosef.

‘Futebol é uma grande escola da vida’: criador da Liga, Juninho cita lições aprendidas e dificuldades superadas: ‘Carne só em dia de jogo e apenas um chuveiro quente no vestiário, isso ensina a valorizar’

“Foi por meio do futebol que viemos de Santa Catarina a São Marcos em busca de um novo ambiente e de novas oportunidades para construir uma nova história”. Assim Juninho resumiu ao São Marcos Online o que o futebol representa em sua vida. O hoje empresário Júnior César Haskel Velho já foi o atacante Juninho, o centroavante que infernizava os zagueiros adversários na busca incessante pelo gol (seu nariz levemente entortado é prova carnal dos embates acirrados que tinha com os zagueiros dentro da grande área).

– Em 1999, quando tinha 19 anos, fui jogar no Caxias e ali iniciou minha trajetória como jogador profissional. Morava com dificuldades e carne só tinha em dia de jogo. Nossa comida era arroz, feijão, farofa e algumas misturas. Mas no fim isso é bom, porque nos acrescenta e ensina a valoriza o pão nosso de cada dia e o que conquistamos – assinala.

Juninho lembra que as dificuldades enfrentadas em Caxias seguiram no Inter de Lages, equipe onde atuou em 2000.

– No Inter de Lages era a mesma coisa e até quase pior que no Caxias. Para 30 pessoas tinha só um chuveiro quente pra tomar banho logo após o treino – lembra, destacando que naquele ano o time lageano foi campeão da segunda divisão catarinense.

Para Juninho, que atuou também no Avenida, São Luiz e São José de Cachoeira, apesar das dificuldades, o futebol profissional, onde atuou até 2004, foi um meio que lhe proporcionou amizades e ensinamentos valiosos.

-Do que conquistei como empresário e do que tenho hoje, muito partiu das vivências que tive no futebol, que é uma grande escola da vida – ressalta.

Em sua avaliação, o futebol abre portas e ensina a pessoa se postar em determinas situações.

– No futebol você é visto, é cobrado e isso traz um ganho em termos de vivência, dando conhecimento pessoal para você seguir com sua vida mesmo sem obrigatoriamente ser um jogador profissional. Muitos amigos com quem joguei há 20 anos hoje estão trabalhando em grandes empresas e, graças ao futebol, conseguem agregar pessoas ao seu redor – salienta.

‘Era dever da Liga atuar com crianças’: Para Juninho, ‘estar longe de casa, sem pais próximos, cama quentinha e comida pronta’, faz evoluir: ‘Futebol proporciona experiência única’

Juninho não tem dúvidas: o futebol traz ganho humano em relação à sociedade e as dificuldades enfrentadas fazem a pessoa evoluir.

– Quando saia cedo de casa e não tinha os pais próximos, nem a cama quentinha e a comida pronta, isso fez eu evoluir em termos de vida e disciplina, de querer e almejar algo. O futebol proporciona uma experiência única – observa.

Pelo que disse ao São Marcos Online, foi um pouco disso tudo que ele tentou legar às crianças e adolescentes através das escolinhas da Liga, que criou em 2013.

– Enquanto desportista e amante do futebol, tinha que trazer isso pra São Marcos. Minhas vivências com o futebol fizeram ser o que eu sou hoje eu quis proporcionar isso a outras pessoas – aponta.

Juninho destaca que as escolinhas foram um passo a mais dado pela entidade criada em 2012.

-Em 2011 iniciamos a Liga com algumas equipes, porque tinha essa dificuldade de organização do futebol amador em São Marcos. E era dever da Liga atuar não só no adulto, mas também com as crianças – pondera.

Ele lembra que, no auge, as escolinhas chegaram ter mais de 300 crianças. Além dos treinamentos semanais, havia amistosos e participação em campeonatos, o que não acontce atualmente.

– Criamos vínculo e trouxemos a Secretaria de Assistência Social junto para o projeto, que tinha como lema formar cidadãos. O que mais faltou foi apoio do poder público: durante anos banquei a Liga com dinheiro do meu bolso. A administração pública não olhou para as crianças como futuro da nossa cidade. E ainda hoje é assim, as escolinhas sofrem muitas dificuldades, pois falta mais investimento e envolvimento do poder público – avalia.

No entendimento de Juninho, também o futebol adulto de São Marcos precisa evoluir.

– O Estádio Municipal precisa ser melhor cuidado e mais utilizado. Já joguei em diversos estádios piores que o nosso, mas em 2018 as equipes adultas jogaram apenas duas partidas durante todo o ano e isso está errado. Lembro que quando a Liga organizou, o campeonato chegou a ter 13 times e havia rodadas aos sábados e domingos, com o Municipal cheio e movimentado. Mas nos últimos anos o futebol entrou em ladeira abaixo em São Marcos e não vai ser fácil resgatar, porque no adulto há hoje um buraco entre gerações, entre a de 35 anos e a de 20 pra baixo. E não temos (atletas) porque faltaram projetos e incentivo. É uma pena, porque São Marcos tem uma linda história no futebol, mas aos poucos ela foi morrendo – avalia.

Para Juninho, exemplos como os de Airton, Mika e Kadu (jogadores que se tornaram profissionais, conforme destacado na primeira parte da reportagem) devem servir de espelho para os que estão começando.

– Nossas crianças vão se espelhar em quem? Sem o envolvimento do poder público vão se perder muitos talentos. Então temos que parabenizar esses guris que iniciaram em São Marcos e foram buscar seu espaço. Eles são a prova de que se houver investimento você colhe os frutos. Porque se o poder público investir e apoiar, surgirão mais jovens como esses. Temos que trazer eles aqui nas férias para dizer como funciona lá fora, para ver se o poder público enxerga a importância de investir em esporte.

Na avaliação de Juninho, São Marcos teria potencial para ter um time de futebol profissional. Ele cita o exemplo do Avenida, de Santa Cruz do Sul, cujo principal patrocinador é um supermercado da cidade.

– São Marcos é uma cidade com grandes empresa. Mas se o poder público não abraça a causa e organiza, elas não investem – pondera.

Por fim, o atacante do Progresso deixa um conselho aos que estão começando: trabalho sério, garra e disciplina como receitas para o sucesso.

– Nos meus 39 anos tive uma vida no futebol bem vivida, com títulos conquistados. O que posso dizer aos que estão iniciando é nunca desistir: ter disciplina, trabalhar sério, fazer com garra e determinação, escutar os professores e querer prosperar. Agindo assim o resultado vai vir. Se não tiver sucesso como jogador de futebol, o sucesso virá em outra área – assegura Juninho.

‘Esporte é fundamental para formação de cidadãos’: treinador da AMSM, Kadu aponta valores adquiridos na prática esportiva: ‘Trabalhar em equipe, cumprir regras e respeitar’

Num momento em que a sociedade brasileira ainda digere os recentes escândalos de corrupção revelados nos últimos anos, indagando de que maneira seria possível formar pessoas mais íntegras e decentes, muitos começam a perceber que essa mudança passa obrigatoriamente pela educação. Alguns (talvez os mais perspicazes) já começam a ponderar que a educação vai além do que se aprende na escola e mesmo em casa, no ambiente familiar.

É nesse sentido que atividades esportivas surgem como importante aliado para a formação de pessoas com mais cárater, contribuindo para a construção de uma sociedade mais honesta, justa e solidária.

– O esporte e fundamental para a formação de cidadãos de bem. A socialização esportiva é importante demais. Aprendemos a lidar com as vitórias e derrotas de forma madura. Aprendemos a trabalhar em equipe e sob pressão, a seguir normas e regras, cumprir horários e respeitar os adversários e autoridades – aponta o professor da AMSM.

Além do aspecto psicológico e de formação do caráter, Kadu cita os benefícios físicos da prática esportiva.

– Esporte traz qualidade de vida – resume.

Em sua avaliação, o adolescente que deseja ser atleta profissional precisa desde cedo se acostumar com uma rotina de vida dura e desgastante.

– Tem que treinar muito, diariamente e durante anos, para talvez um dia conseguir se tornar um atleta profissional. Muitas vezes na adolescência o atleta tem que abdicar de viver como um adolescente para poder treinar e evoluir. Mas é como tudo na vida: para se conquistar, tem que batalhar – pondera, destacando que entre as diversas modalidades o futebol é uma das mais desejadas pela garotada.

Sobre o incêndio no CT do Flamengo, que culminou na morte de 13 adolescentes, Kadu entende que a tragédia representa “um descaso com as leis públicas”.

– Sabemos de muitas histórias de meninos com qualidade que sonham em se tornarem jogadores de futebol. Muitas vezes eles residem em locais distantes de onde ocorrem os treinos e precisam de alojamentos nos clubes, os quais, em muitos casos, têm situações precárias em que o mínimo conforto é um luxo. O luxo, aliás, pode ser dispensado. Mas a segurança de uma vida jamais. E quando se disponibiliza estrutura precária e sem o aval de engenheiros, como no

caso do Flamengo, se corre o risco. Por isso que o clube tem que ser responsabilizado pelas vidas que se interromperam naquela tragédia – opina.

Em relação ao Projeto Crescimento, desenvolvido há mais de duas décadas na AMSM, Kadu destaca que ele é significativo para o esporte são-marquense.

– Com mais de 600 pessoas matriculadas e frequentando todas as modalidades esportivas, concentramos cerca de 250 crianças e adolescentes praticantes das modalidades esportivas do clube. Grande parte é referente ao futsal – aponta.

Kadu ressalta que em 2019 o Projeto Crescimento, que abre oportunidades para crianças que não têm condições de pagar, está “dentro das escolas”.

– Estamos indo para a segunda semana e até agora foi um sucesso. Esperamos ampliar para toda a rede de ensino do município – revela.

‘Disciplina e atividades físicas são fundamentais’: idealizador do Projeto Crescimento, Geraldo Sandri fala sobre benefícios sociais do esporte: ‘Sou apaixonado por esse projeto’

Foi na época em que exerceu o cargo de Diretor de Esportes da AMSM que Geraldo Sandri trabalhou para implantar o Projeto Crescimento. Mais de duas décadas depois, ele lembra de como tudo começou.

– Em 1995 fui convidado para ser diretor de esportes pelo presidente da AMSM, Eduardo Michelin, um grande incentivador do esporte local. Estávamos determinados a implantar um projeto diferente e sustentável, para ter vida longa e trazer benefícios ao esporte local. Foi então que elaboramos o Projeto Crescimento, com foco nas categorias de base e incluindo diversas modalidades. Estruturamos as etapas, planejamos e implantamos. E o fato de ter mais de 20 anos de existência é a prova de que estávamos certos e de que esse projeto realmente tem grande importância social e esportiva para a comunidade como um todo e, em especial, para as famílias envolvidas. Sou um apaixonado por esse projeto – revela.

Geraldo entende que as crianças e adolescentes precisam de atividades e convívio.

– Regras, disciplina e a

tividades físicas são fundamentais para o ser humano.

Em sua avaliação, um dos diferenciais é o respaldo dado pela Comissão de Pais.

– O Projeto Crescimento está sendo muito bem conduzido pela atual equipe da AMSM. Claro que, por questões orçamentárias, são necessários ajustes.

Para Geraldo, há carência de projetos em São Marcos para que o esporte seja ainda mais desenvolvido e qualificado no município.

– As crianças e jovens de nossa cidade precisam disso, mas na maioria das vezes não se manifestam sobre essa necessidade. Cabe às lideranças essa percepção – pondera.

‘Amor ao esporte dá força para seguir em frente’: Diretor Rui Borba apresenta calendário de competições do município e revela: ‘Meu sonho era ter sido jogador profissional’

“Falta mais parceria entre prefeitura, clubes, atletas, comunidade e empresas”. Foi com essas palavras que o Diretor Municipal de Esportes Rui Borba resumiu ao São Marcos Online sua opinião sobre o que falta para o esporte são-marquense ser ainda mais desenvolvido e qualificado.

– Por que falo de parceria? Em primeiro lugar porque se a prefeitura está disponibilizando premiação, arbitragem e organização das competições sem custo para os atletas e clubes, eles têm que dar valor e ajudar, para que fique um clima bom para todos, sem entrar nas redes sociais apedrejando a prefeitura por causa de qualquer coisa mínima que deu errado. Melhorando esse primeiro ponto dá pra chegar no segundo, que é a parceria com as empresas. Porque em algumas cidades as empresas ajudam a realizar as competições, fornecendo patrocínios para as equipes com uniformes com suas marcas e valor para premiação; em troca as equipes ajudavam a divulgar o nome das empresas. Além disso, tem que haver parceria da comunidade, que precisa assistir aos jogos, acompanhar os campeonatos e torcer para as equipes. Vejo que é isso – essa parceria – que falta para melhorar o nosso futebol no município – avalia.

Rui destaca que o futebol são-marquense está num nível “muito bom”.

– Ano passado foi barrada a inscrição de atletas de fora do município e tivemos um ótimo campeonato de futebol. Além disso, houve três campeonato de futsal (Interior, Municipal e Veteranos) muito bons.

Durante a conversa, ele revelou “amor ao esporte”, dizendo que sonhou em ser jogador de futebol.

– Jogo desde os 8 anos. Comecei a treinar na escolinha de futsal do Grêmio Americano (GA). No ano seguinte passei no teste da AMSM e aos 14 anos comecei a jogar o Municipal. Desde pequeno pratiquei esporte e meu sonho era ter me tornado jogador profissional – revelou.

Ele disse estar gostando do cargo que passou a exercer na administração municipal.

– Agora estou atuando na área que sempre gostei (antes de ser Diretor de Esportes, Rui atuava na Secretaria Municipal de Saúde) e está sendo muito bom. É o amor ao esporte que dá forças para seguir em frente.

Corrida de carrinho de lomba, campeonato de taco e Copa Vales da Serra de futebol podem ser novidades no calendário esportivo são-marquense em 2019

Em Bento Gonçalves as corridas de carrinhos de lomba evidenciam município

Na entrevista que concedeu ao São Marcos Online, o Diretor Municipal de Esportes Rui Borba anunciou o calendário de competições esportivas que serão organizadas pela prefeitura em 2019. Pelo que disse, não há novidades e seguirão as mesmas que já vinham acontecendo. Bochas, Municipal de Futsal, Futsal do Interior e de Veteranos, Municipal de Futebol, Copa Vales da Serra de Futsal e Rústica do Padroeiro.

Além das tradicionais competições, podem ocorrer novidades.

– Vamos tentar agregar em nosso calendário de 2019 as seguintes competições: Copa Vales da Serra de Futebol, Campeonato Municipal de Futsal (Master), Campeonato Municipal de Futsal Feminino, duas rústicas, passeio ciclístico, corrida de carrinho de lomba e campeonato de taco.

Contudo, Rui ressalta que apenas a Rústica do Padroeiro já tem data definida.

– De todas as competições que temos no planejamento, apenas a Rústica do Padroeiro tem data marcada: acontecerá em 28 de abril e as inscrições iniciam neste dia 11 de março. As demais estamos aguardando a licitação de arbitragem.

 

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here