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O primeiro campeão oficial da corrida de carrinhos de lomba em São Marcos conta sua história: “Foi tudo na raça e na vontade, e sem freios”

O homem que fez história na ladeira relembra como venceu a primeira corrida oficial, e como um carrinho abandonado se destacou: “Eu arrumei e ganhei a corrida” O campeão original da descida de carrinhos de lomba conta como conquistou o título há quase cinco décadas. Prova durou alguns anos e cessou; agora será retomada com edição neste dia 8 de fevereiro.

Atualizado em 30/01/2026 às 07:01, por Angelo Batecini.

Alexandre Daros Ribeiro em dois momentos: à esquerda, ainda adolescente, no carrinho de lomba vencedor da primeira corrida oficial de São Marcos, no fim da década de 1970; à direita, atualmente, caminhoneiro, ao lado de seu caminhão.

Ontem e hoje: Alexandre Daros Ribeiro, primeiro campeão oficial da corrida de carrinhos de lomba de São Marcos, aparece na foto histórica da década de 1970, no carrinho vencedor, e em imagem atual, já adulto, ao lado do caminhão que simboliza sua trajetória profissional na estrada. Fotos: arquivo pessoal.

Antes mesmo de existir pista, treino, patrocínio ou troféu de metal, a Descida de Carrinho de Lomba em São Marcos nasceu da imaginação, da amizade e da pura vontade de descer uma ladeira. No próximo domingo, 8 de fevereiro de 2026, essa tradição retorna à cidade depois de décadas, e para entender como tudo começou, nossa reportagem conversou em profundidade com quem fez história: o primeiro campeão oficialmente registrado da competição, Alexandre Daros Ribeiro.

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“Foi em 78 ou 79… acho que a cidade estava fazendo 15 anos”

Ao ser perguntado sobre o ano em que participou daquela primeira corrida, Alexandre arrisca nos detalhes: “Foi em 1978 ou 1979… não me lembro exatamente o ano. Me parece que a cidade estava completando 15 anos. Se a memória não falha, foi ali que saiu a corrida e eu fui o primeiro campeão oficialmente registrado.”

Naquele tempo, São Marcos ainda guardava muitas ruas de terra e áreas abertas onde meninos transformavam sucata em brinquedo e brincadeira em competição. Mas o que torna a história dele especial não é apenas a vitória, é como ela começou.

O carrinho que ninguém queria

Alexandre relata que, na época, ele trabalhava com Abramo Chemelo, um comerciante da cidade que tinha dois carrinhos, construídos com sobras de madeira, rodas reaproveitadas e muita criatividade. Esses carrinhos já tinham participado de uma corrida informal, mas não era nada oficial.

Um dos carrinhos estava guardado dentro da loja de Abramo; o outro estava largado no matagal do terreno dele, praticamente esquecido.

Ele lembra nitidamente da fala de Abramo, que refletia como as coisas eram simples e espontâneas:

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“Tá, então me dá aquele outro lá fora… aquele que está no matagal. Eu quero correr com aquele.”
E a resposta:
“Aquele não vale nada!”

Era um carrinho velho, sujo de poeira e ferrugem, algo que ninguém achava que poderia ganhar uma corrida. Mas foi esse carrinho “que não valia nada” que acabou nas mãos de Alexandre.

Transformar sucata em velocidade
 

Alexandre posando para foto oficial do primeiro evento no município de São Marcos na década de 70. Arquivo pessoal.

Alexandre posando para foto oficial da primeira prova organizada em São Marcos na década de 70, que ficou eternizada em poster. Arquivo pessoal.

“Levei aquele carrinho pendurado na bicicleta até em casa,” relembra Alexandre com um sorriso discreto, como quem revive uma aventura de infância. Ele então começou a transformá-lo por completo:

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  • pedia rodas e rolamentos nas oficinas;
  • fazia ajustes na estrutura com a ajuda de conhecidos;
  • improvisava com o que encontrava de borracha, lona e tinta.

“Era tudo na base da coragem e da vontade”, diz ele.
O carrinho foi ganhando forma nas mãos de Alexandre, que passava horas consertando cada detalhe, mesmo sem nenhum modelo ou plano definido.

A corrida sem treino, sem patrocínio e sem freio de verdade

Naquele tempo, a “competição” era muito diferente do que se imagina hoje. Não havia treino oficial, nem cronômetro eletrônico, nem público organizado. O ritual era simples:

  • subir até o Monte Calvário com o carrinho;
  • posicionar o veículo;
  • descer ladeira abaixo em direção ao campo de futebol.

E sem freio de verdade.

Quando perguntado sobre isso, Alexandre ri:

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“O freio era aquele pedalzinho de ferro e a roda pequena... e eu pensei: ‘Freio pra quê? Só vai atrapalhar!’ Então peguei dois tubinhos de óleo de máquina e coloquei ali… só para sair deslizando mesmo!”

Foi com esse improviso que o carrinho, agora reformado, mas sem freio eficiente, ganhou velocidade e venceu. “Ganhei as duas baterias! Dois primeiros lugares! Uma descida e já era primeira colocação.”

O prêmio? Um pôster comemorativo e 3 mil cruzeiros, simples, mas que simbolizava a conquista de quem havia transformado sucata em história.

Amizade, infância e o espírito da época

Alexandre nasceu em Porto Alegre, mas passou sua infância em São Marcos, morando na Rua Duque de Caxias, 166, onde cresceu com amigos.

“Eu e eles a gente brincava na rua… era muita areia, cascalho… e o carrinho era nosso brinquedo favorito. Levávamos ele lá em cima e descíamos a rua todinha. Mesmo quando a rua estava cheia de cascalho e pedra, era uma aventura atrás da outra.”

A falta de tecnologia, celulares ou qualquer distração eletrônica fazia com que as crianças se dedicassem às brincadeiras ao ar livre: subir morro, consertar carrinho, disputar quem chegava primeiro ao campo… era um tempo de comunidade, de rua viva, de amizade forte.

A estrada como destino, e paixão duradoura
 

Nos dias de hoje, Alexandre posa ao lado do seu caminhão, que segundo ele é mais do que trabalho, é estilo de vida. Arquivo pessoal.

Hoje, ao lado de seu caminhão, Alexandre relembra o tempo de infância em São Marcos e dos carrinhos de lomba. Arquivo pessoal.

Depois da adolescência, a vida levou Alexandre de volta a Porto Alegre. Lá, ele constituiu família, trabalhou como empregado e depois abriu sua própria empresa de transporte. Mas, como ele mesmo define:

“Eu sempre gostei de caminhão. Quando completei 18 anos, fui pra estrada. A estrada é como se fosse uma casa de lata dentro da vida de um homem.”

Com o tempo, ele comprou caminhões, formou sua filha, que hoje trabalha com ciência da computação, e seguiu a vida na estrada, sempre com o amor pelos veículos grandes e pelo movimento constante das viagens.

“Aqui”, diz ele, apontando para seu caminhão, “é onde eu mais me sinto vivo. Não é só trabalho… é paixão.”

O retorno da corrida e o desejo de estar presente

A data do retorno da corrida, 08 de fevereiro de 2026, tem outro significado especial para ele: foi também o dia em que se casou, em 1986. Quarenta anos depois, ele diz que quer muito estar presente, mesmo que apenas para assistir e rever amigos daquela época.

“Eu fiz força pra isso,” ele diz. “Depende de muitas coisas, mas eu quero muito poder voltar, ver aquela ladeira, ver as crianças correrem e lembrar de tudo… porque aquilo ali foi especial.”

A história de Alexandre não é apenas sobre uma corrida, é sobre criatividade, amizade, coragem e amor pela vida simples de uma cidade que ainda preserva lembranças fortes de seus primeiros dias. O carrinho abandonado no matagal que ninguém queria tornou-se símbolo de uma vitória que, décadas depois, ainda inspira a retomada de uma tradição que marcou gerações.