Malévola: Dona do Mal

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Vilã se desvirtua ainda mais de sua origem, se transformando em heroína

Várias vezes o vilão rouba a história, pois sua personalidade é mais complexa que os insonsos heróis. Nos filmes da Disney isto é uma situação constante. Quem não lembra da Rainha Má, que possuía motivações mais complexas que as de Branca de Neve (1937). Como esquecer Cruela Cruel, e seu desespero por casacos de pele na Guerra dos Dálmatas (1961). Como não destacar o leão Scar, que com sua maldade shakespeariana mata o próprio irmão e manda para o exílio o Rei Leão (1994). No entanto, existe uma vilã que de tão complexa conseguiu roubar não apenas a cena, mas todo o filme, incluindo o título da história. Estou falando de Malévola (2014), que no desenho animado era uma personagem secundária, mas no live action conseguiu surrupiar o protagonismo da Bela Adormecida. Malévola foi a além disto. Agora ela leva a história a sua continuação, prosseguindo a jornada de heroísmo de uma personagem que foi criada para ser a encarnação de todo o mal.

Cópia Malfeita

O primeiro filme Malévola foi lançado em 2014. A história devia ser uma cópia do desenho animado “A Bela Adormecida” de 1959. Desta vez os diretores resolveram inverter a lógica do enredo. No lugar de apresentar o ponto de vista dos heróis, a história parte da perspectiva da vilã. Nela é mostrada porque Malévola se tornou maligna. Na infância, o Rei Stefan enganou a fada Malévola, protetora do reino mágico de Moors. Fez isto para roubar suas asas. O engodo a deixou com um ódio enorme dos humanos. Quando o Rei realiza a festa de batizado de sua filha, Aurora, a bruxa irrompe o salão e lança um feitiço contra a menina. Nele, quando a garota completar dezesseis anos, ira furar o dedo numa roca de fiar. Por este motivo ela cairá num sono profundo, junto com todo seu reino. O Rei, para proteger a filha, a envia para morar escondida no bosque, junto com três fadas que deverão proteger a menina.

Nem tão má assim

No live action vemos que a bruxa não era tão má assim. Ela acompanha o crescimento da garota orientando o seu desenvolvimento. Quando o feitiço finalmente recai sobre a menina, para quebrá-lo é necessário um beijo de amor verdadeiro. Nesta versão o ósculo não é fornecido pelo príncipe, até por que seria errado um homem beijar uma garota dormindo, sem posse dos seus sentidos. Quem beija a princesa desta vez é a própria Malévola, que praticamente a criou. A bruxa é a única pessoa que possui amor verdadeiro (de mãe) sobre Aurora.

Romeu e Julieta

Achou a história estranha? Pois ela fez tanto sucesso que ganhou uma continuação: “Malévola – Dona do Mal”. Esta foi lançada recentemente e como todo filme Disney já desponta nas bilheterias. Agora o enredo avança sem a mínima orientação da clássica versão de francês Charles Perrault, que criou a Bela Adormecida, ainda no século XVII. Na nova trama, Aurora é a rainha do reino mágico de Moors. Mesmo assim a princesa mantém um romance com o príncipe Philip. Este a pede a mão da princesa em casamento. Apreensiva, a garota pede permissão para a sua mãe adotiva, Malévola, para efetuar o matrimônio. A bruxa não gosta da ideia, mas decide apoiar a menina, até porque a união selará a paz entre Moors e o reino de Philip.

Má digestão

Para celebrar o pedido, Aurora e Malévola são convidadas para um jantar com a família real de Philip. No evento fica claro as diferenças entre a mãe do Príncipe, a Rainha Ingrith, e Malévola. Estas se alfinetam durante todo o banquete. Tudo já ia mal, até que uma confusão faz com que o Rei seja envenenado e a Rainha coloque a culpa em Malévola. A guarda tenta prender a bruxa, que foge, não antes de ser atingida em uma das asas. A protagonista despenca dos céus, mas é resgatada por seres de sua raça.  Descobre-se então que os parentes de Malévola estão exilados há vários anos, fugindo dos humanos. Enquanto se recupera, a feiticeira encontra a paz, mas ela sabe que logo deverá voltar para resgatar a filha e mostrar aos humanos todo o poder da Dona do Mal.

Malvada, mas bem vestida

O segundo filme de Malévola é um luxo em todos os sentidos, figurino, cenários e efeitos especiais. Na verdade, as vezes parece que existe excesso, para uma história que poderia ser mais complexa e envolvente. A grandiosidade é necessária para a fita se manter minimamente no mesmo nível de outras obras sobre idade média, como O Senhor dos Anéis, O Hobbit, Game of Thrones ou todos outros infindáveis sucessos sobre esta época. No entanto, mesmo estas alegorias não facilitam para que o enredo encontre um eixo que faça a película se sobressair.

Bem ou Mal, eis a questão

O grande problema de Malévola é que ele desvirtua totalmente o conto de Perrault, uma história que sobreviveu por mais de trezentos anos. O primeiro filme querer encontrar motivações para Malévola agir da sua forma maligna é um verdadeiro absurdo. A bruxa deveria ser má e pronto. Os roteiristas forçam a barra ao tentar explicar que ela é uma vítima do sistema e que no seu íntimo teria algo de benéfico que a sociedade opressora não entendeu. Hora, no desenho animado ela chega a se tornar um Dragão para torrar o príncipe herói. Não tem como se extrair bondade disto. E o pior é que o segundo filme segue na mesma toada. Ao menos desta vez já existe uma base para se considerar Malévola uma heroína. Mesmo assim fica estranho ver a Dona do Mal tentando salvar o dia.

A Mãe da Maldade

O que se salva mesmo na fita é a atuação de Angelina Jolie, como Malévola. Na verdade poderia apostar que sua influência é um dos principais motivos para as mudanças da personagem. Nesta fita mais uma vez ela dá show como a bruxa. Certamente consegue isto porque, como ela mesmo disse em uma entrevista, Malévola é a personagem que mais se assemelha a sua personalidade, facilitando a composição para atuar. Vale ressaltar também a beleza da protagonista, com seus grandes chifres, roupas aderentes (e aos pedaços) e os enxertos de maquiagem nas maçãs do rosto. Não deve ter sido fácil transformar-se na vilã, mas certamente Angelina adorou o processo. 

Quem irá nos socorrer

Concordo com densidade de personagens, áreas cinzas da personalidade, motivações para compor caráter. No entanto, acho que transformar o bom em mau, num conto infantil, é um pouco demais. Entendo que o ideal seria manter alguma fidelidade ao material original, até por respeito a quem escreveu a obra, há centenas de anos. Inovações podem ser feitas, mas, principalmente numa história para crianças, bom é bom e mau é mau. Inovações são bem-vindas, mas transformação total do enredo é discutível. Como toda obra de arte, o cinema deve ter liberdade para modificar estruturas, apenas espero que esta confusão de conceitos não seja ampliada com isto. Malévola é um filme bem feito, mas preferiria que os pequenos tivessem medo de um personagem que se intitula a dona do mal, no lugar de destacá-lo em pôsteres de seus quartos. Pior de tudo é que, com a grande bilheteria que está obtendo, e com o carinho de Jolie pela personagem, podemos ter certeza que existe uma grande possibilidade de mais Malévolas virem por ai. Príncipe Philip salve-nos de sua sogra, talvez você seja nossa última esperança.   

Trailers

Elenco Citações e Referências

Malévola – Angelina Jolie, Salt – 2010

Princesa Aurora – Elle Fanning,  Super 8 – 2011

Rainha Ingrith – Michelle Pfeiffer,  Batman: O Retorno – 1992

Príncipe Phillip – Harris Dickinson,  Mentes Sombrias – 2018

Connal – Chiwetel Ejiofor,  Doutor Estranho – 2016

King John – Robert Lindsay, My Family – 2000 – 2011

Diaval – Sam Riley,  O Vale Sombrio – 2014

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