I am Mother

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Fórmula Netflix faz interessantes alegorias sobre a adolescência e a puberdade

Se existe uma fórmula Marvel, uma fórmula Spielberg ou uma fórmula Almodóvar de fazer filmes, aos poucos também vamos descobrindo do que é composta a fórmula Netflix de apresentar obras inéditas. Os sucessos do serviço de streaming, ou ao menos os grandes lançamentos, são compostos de três ingredientes. Primeiro é importante ter um roteiro razoável. Nada muito impactante, mas que seja assistível no conforto de casa, para passar algumas horas. Segundo é necessário ao menos um protagonista e coadjuvante que já tenha tido um bom espaço em Hollywood para atrair sua fã-base. Por último, se for um filme de ficção, é bom ter efeitos visuais interessantes. Não se preocupe com nada inovador, pois a fita será apresentada em tela pequena. Será difícil observar detalhes.

Só muda o endereço

Assim, no Streaming, foram apresentados de forma inédita filmes como Beast of No Nation (2015), Maggie (2015), Bright (2017), Próxima Parada – Apocalipse (2018), Extinção (2018), Bird Box (2018), The Silence (2019), e agora chega ao serviço o razoável “I am Mother” (2019). No longa o apocalipse já chegou e o que sobrou da cultura humana está dentro de um abrigo de sobrevivência. Este aparenta ser preparado para a convivência de centenas de humanos. A base é capaz de repovoar o planeta. No entanto apenas um robô vive no local. Após uma experiência biológica, o androide cria um ser humano de forma artificial. O recém-nascido, de um útero biônico, é uma menina chamada apenas de filha, enquanto a robô passa a ser nominada de mãe.

A cara da mãe

Vemos então a garota se desenvolver naquele ambiente quase solitário. A robô trata a menina como se fosse sua legitima filha, prepara para ela suas festas de aniversário, a ensina várias matérias necessárias para a vida, incentiva que a garota desenvolva outras atividades como balé. Já na adolescência a filha se depara com fios desgastados, interferindo no bom andamento da base. Não demora e ela encontra um rato que só pode ter vindo da superfície. A Mãe fica desesperada com a presença do animal e logo o incinera para evitar a contaminação da base. A garota como boa adolescente se indigna com a ação da androide, afinal aquele deveria ser o outro único ser vivo na Terra, além dela própria.

As más influencias

Enfurecida a menina se afasta da sua orientadora. Justamente neste período, uma batida insistente é irrompida na porta da estação. Ao verificar o que está acontecendo, filha dá de cara com uma mulher na janela do portão de entrada da base. Esta aparenta ter sido agredida, está ensanguentada e suplica por abrigo. A menina permite que a mulher adentre a base, mas ao fazer isto descobre que a convalescente alega ter sido perseguida por vários androides na área externa. Agora a filha vive um dilema. Ela deve acreditar no ser que sempre lhe forneceu todas as condições para sobreviver, mas não é de sua espécie, ou abraçar a curiosidade de conhecer alguém da mesma raça mas que a coloca frontalmente com todas experiências que viveu até aqui.

Tal mãe, tal filha

Mother

I am Mother, é mais que uma ficção cientifica. Na verdade trata-se de uma alegoria da própria vida e do papel desenvolvido entre pais e filhos, destacando os conflitos da adolescência. A fita mostra que, mesmo um ser humano em total isolamento terá uma fase que desenvolverá seus próprios pontos de vista e começara a questionar as bases que o levaram a crescer até ali. Crescer, para o filme, é contrapor seus paradigmas, mesmo quando estes são estabelecidos por um ser quase perfeito, como uma mãe robô. Se os caminhos escolhidos a partir dai são melhores, só a vivência de cada protagonista pode dizer.

Apetrechos de Mãe

Para trazer esta reflexão, a obra apresenta, mais uma vez, uma ótima representação da vencedora do Oscar, Hilary Swank. Esta inunda a tela com dores e sentimentos, como no seu Menina de Ouro (2004), que venceu o prêmio da Academia de Los Angeles. Outro destaque para o filme é a criação da estação e principalmente do Robô Mãe, que mesmo tendo um ser humano em seu interior, tem movimentos sincronizados perfeitos, assemelhando-se ao antigo Robocop da década de noventa.

A Fórmula Humana

Com “I am Mother” somos apresentados, mais uma vez, a fórmula Netflix: Roteiro mediano, Ator Experiente, Efeitos aceitáveis. Também percebemos que nós, seres humanos, também somos compostos de fórmulas básicas. Dentre estas destaca-se a do período da adolescência ou puberdade. Nela buscamos questionar nossas bases, para que a vida novamente avance. Talvez agora que a Netflix já está completamente sedimentada no mercado, seja a hora do serviço dar seu salto adolescente. É o momento de questionar sua própria fórmula segura e partir para filmes com mais qualidade estética e intelectual que possam concorrer com qualquer película do cinema. Se fizer isto tenho certeza que o streaming conseguira disputar palmo a palmo os espaços com a sétima arte, sua mãe, e tenho certeza que conseguirá brilhar de forma independente, abrindo novos caminhos no mundo audiovisual.

Elenco, citações e referências

  • Mulher – Hilary Swank, Menina de Ouro (2004),
  • Mãe – Rose Byrne, Tróia, 2004
  • Filha – Clara Rugaard, Espírito Jovem, 2018

Trailer

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