Era uma vez… em Hollywood

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Tarantino subverte a lógica para trazer filme violento e contemplativo

Se existe um diretor que pode ser enquadrado como rebelde, certamente este é Quentin Tarantino. Com uma carreira de nove filmes, Tarantino se destaca por quebrar as barreiras sociais, éticas e de convivência em suas películas. Quentin sempre consegue burlar as lógicas do próprio gênero cinematográfico que está filmando. Faz este desmanche prestando homenagens claras. Além de todo o figurino, idêntico ao do estilo reproduzido, ele consegue replicar o ambiente da época com exatidão. Até a lente da câmara se assemelha ao que era usado nas filmagens originais. Por falar em desmanche a violência também sempre é utilizada por Tarantino, sem pudor algum. Aquilo que você jamais imaginaria ver no cinema estará nos seus filmes com certeza.

Filmes ao contrário

Esta desconstrução que falamos pode ser vista em seu filme sobre o mundo do crime, Pulp Fiction (1994). Tarantino fragmenta a história, de forma que o espectador só entenda o que está acontecendo no final. Em seu filme sobre lutas marciais, Kill Bill (2003), o diretor transforma uma loira, de olhos azuis, em uma fatal ninja nipônica. Já na sua homenagem aos filmes de guerra, Bastardos Inglórios (2009), finalmente a humanidade assiste Hitler sendo assassinado. Agora, com “Era uma Vez em Hollywood”, Tarantino visita o mundo das celebridades do cinema, do final da década de sessenta e mostra um mundo que vai além do glamour das revistas de época. Quentin apresenta uma Los Angeles como era, mas como nunca tínhamos visto.

Realidade Sangrenta

Era uma vez em Hollywood volta a virada para a década de setenta, com a vida do ator decadente de séries de Faroeste, Rick Dalton (Leonardo DiCaprio). Junto com ele conhecemos o duble Cliff Booth (Brad Pitt), que se limita a servir de ajudante e motorista para Dalton. A grande motivação do filme é que Dalton mora ao lado da residência de Roman Polanski e Sharon Tate (Margot Robbie). Roman era considerado um dos maiores diretores de cinema da época, graças a filmes como o “O Bebê de Rosemary” (1968) e a “Dança dos Vampiros” (1967). Já Sharon, na vida real, era uma atriz ascendente e namorada de Polanski. Ela estava grávida de oito meses quando foi brutalmente assassinada por uma seita de “hippies” liderados pelo lunático Charlie Manson.

Tic-Tac

A obra trata de apresentar, durante duas horas e quarenta minutos, a vida de Rick, Cliff e Sharon na Hollywood da época. O filme passeia pela forma que agia o show business naqueles anos em que o glamour começava a ter uma influência exacerbada na vida dos atores. A película retrata fielmente a vida da virada de década, num estudo de produção incrível, que traz desde cartazes com o cowboy da Marlboro, até dezenas de marcas e logotipos que eram usados. Na tela vemos das festas da Playboy, até a vida no sujo santuários hippie de Charlie Manson. A crescente decadência da vida de Cliff serve como um cronômetro para terrível noite do assassinato Tate, que marcou Los Angeles, e obviamente Hollywood, para sempre.

Diminuindo a Velocidade

Como nos seus outros filmes, neste Tarantino também subverte a lógica, só que no caso a sua própria. Se em Pulp Fiction, Kill Bill ou Bastardos inglórios a ação é constante, neste trabalho a filmagem é quase contemplativa da história real e da ficção imposta. Assiste-se a todo desenrolar podendo se analisar os mínimos detalhes do que acontecia naqueles anos. Mas, se você ama a violência de Quentin, não se preocupe. Ela permanece, desde um fictício embate de Bruce Lee com Cliff. Também está em uma visita do duble ao Santuário de Mason. Obviamente o final precisa ser sangrento, talvez não como você espera.

Grand Finale

Quentin Tarantino prometeu ao mundo cinematográfico que encerraria sua carreira no décimo filme. Isto poderá ser interessante, pois certamente o diretor irá modificar sua lógica, como tem feito ao longo de sua carreira. Poderá nos entregar uma obra apoteótica, completamente inovadora, que valerá como Grand Finale de seu trabalho. No entanto, espero que a subversão seja de sua própria palavra. Que Tarantino continue nos fornecendo películas novas por muitos anos ainda, nos entregando reproduções de época perfeitas, violência inteligente e, principalmente, surpresas chocantes. O mundo não estava preparado para Tarantino quando ele se apresentou e, certamente, agora não estamos preparados para deixar de assisti-lo tão cedo.

Trailers

youtu.be/OYGUQmJlgiE https://youtu.be/qF8_bl7jjug

youtu.be/dEaavmLWc3s https://youtu.be/6A_Xn9io9PQ

Elenco, Citações e Referências

Rick Dalton – Leonardo DiCaprio – Django Livre, 2012

Cliff Booth – Brad Pitt, Bastardos Inglórios, 2009

Sharon Tate – Margot Robbie, O Lobo de Wall Street, 2013

Roman Polanski – Rafal Zawierucha, Varsóvia 44, 2014

Charles Manson – Damon Herriman, A Casa de Cera, 2005

Lynette “Squeaky” Fromme – Dakota Fanning, Chamas da Vingança, 2004

Bruce Lee – Mike Moh, Inhumans, 2017

Steve McQueen – Damian Lewis, Irmãos de Guerra, 2001

Marvin Shwarz – Al Pacino, Scarface, 198

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