Desfralde: como fazer

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Imagem ilustrativa

Aquela época mágica em que a gente pergunta 10 mil vezes por dia se a criança quer ir ao banheiro, ouve milhões de “não” e passa a maior parte do tempo limpando xixi pela casa e pela sala de aula. Brincadeirinha, nem sempre é assim. O processo de tirar a fralda é trabalhoso, mas vale a pena.

O desfralde é uma das grandes conquistas rumo à autonomia da criança, e também é considerado pelos estudiosos e profissionais da primeira infância como um momento de descobertas, quando a criança toma consciência de suas capacidades de controle e de seu corpo. Para que isso aconteça no tempo adequado da criança, é fundamental que os pais e educadores entendam como se dá essa etapa de desenvolvimento infantil e conheçam as melhores práticas para ajudar as crianças a desfraldarem sem problemas.

Os especialistas listam alguns aspectos que nos ajudam a avaliar se já está na hora.

Sinais físicos: a criança já consegue andar com firmeza, consegue correr, consegue pular com os dois pés juntos, consegue subir escada alternando os pés nos degraus, fica seco por longos períodos de tempo, faz bastante xixi de uma vez só.

Sinais cognitivos e comportamentais: a criança consegue ficar sentada, se incomoda com a fralda suja, não tem rejeição com o banheiro ou penico, consegue seguir instruções simples, conhece as palavras xixi e cocô e sabe a que elas são relacionadas, muda de comportamento ao fazer cocô (se concentra, se isola, para o que está fazendo).

Mas, e o desfralde na escola!

O ambiente escolar pode contribuir – e muito – para a aquisição individual da nova habilidade, sem que isso signifique desfraldar todas as crianças ao mesmo tempo, de modo massificado, através do chamado desfralde coletivo, o qual facilita a rotina escolar, mas não considera as particularidades de cada criança.

Sabemos que garantir um olhar atento e singular no ambiente coletivo é sempre um grande desafio aos educadores. Porém, quando família e escola trabalham em parceria, esse olhar é facilitado, favorecendo o desenvolvimento integral das crianças.

Quando as crianças passam a frequentar a escola, a família se surpreende com a capacidade da criança em aprender rapidamente a falar melhor, conhecer mais brincadeiras, cantar e se comportar diferente. Porém, mesmo participando da convivência coletiva, algumas crianças relutam em abandonar a fralda. Neste caso, se não houver parceria entre escola e família, o avanço fica mais demorado e difícil.

Se a escola considera que a criança está em condição de iniciar o desfraldamento, é preciso que o processo seja pensado junto com a família. Do mesmo modo, a família deve comunicar a escola quando tem a intenção de dar início ao processo.

Escutar o que cada uma das partes (família e escola) pensa, teme e espera é o que possibilita evitar o surgimento de um clima de competição entre a família e a escola, e entre os profissionais da escola, sobre “o melhor jeito de lidar com a criança”. Se essa competição, cujo pano de fundo é a divergência de expectativas, ideias, opiniões e posturas, se instala, a criança pode ficar muito confusa com a distorção das mensagens que ela recebe de cada uma das partes, podendo inclusive se sentir em falta com o(s) adulto(s) que ela não atende.

Para evitar descompassos dessa ordem, a família e a escola devem ser parceiras nas ações com a criança, conversando sobre suas expectativas e definindo conjuntamente o início do desfraldamento, considerando as estratégias que serão usadas e a maneira como lidarão com os eventuais “acidentes”. Sempre que possível a conversa com a família (preferencialmente de forma privada e não na frente da criança ou de outras pessoas) deve incluir o casal parental e não apenas a mãe ou o pai (ou outro adulto responsável), já que eventuais discrepâncias sobre como cada um encara o processo do desfralde precisam ser debatidas previamente.

Fisiologicamente, a partir de 1 ano e meio ou 2 anos, a criança começa o processo de adquirir controle sobre os esfíncteres (estruturas responsáveis pela expulsão das fezes e da urina) e se torna capaz de liberar suas excreções no momento em que desejar.

A Filosofia construtivista e em consonância com a Associação Brasileira de Pediatria, entendem que geralmente, uma criança de 2 anos de idade já se encontra madura fisiologicamente e psicologicamente para o início da retirada de fraldas. Entretanto cada criança tem o seu desenvolvimento e o seu tempo para aquisição de habilidades.

No entanto, mais do que focar na idade, vale lembrar que o momento ideal é quando a criança se mostrar preparado e isso pode variar muito de criança para criança. Para saber se seu filho já está pronto repare no comportamento: se ele indicar que a fralda suja a incomoda, se transparecer nojo ou estranhamento por conta da fralda, se informar que está fazendo xixi ou cocô, ele pode estar começando a se desprender da excreção.

O diálogo é primordial nessa etapa. Ensinar para a criança que ela cresceu, que a fralda é um recurso para crianças pequeninas e que existe um lugar ao qual as pessoas crescidas vão para deixar o xixi e o cocô pode ajudar. Esse tipo de discurso, com teor de que a criança amadureceu e cresceu, costuma colaborar para que ela entenda a importância do banheiro. Tente explicar que os amigos da escola, o irmão mais velho e o primo também estão usando a privada. O fundamental, no entanto, é evitar tecer qualquer comentário que possa humilhar o pequeno.

O discurso lúdico pode dar mais leveza a essa fase, por isso, se despedir dos dejetos ou comprar massinhas de modelar que simulem as fezes pode ajudar a criança no momento em que ela dá adeus ao cocô, quando ele vai privada abaixo. Também dá para levar o bichinho de pelúcia ou boneco favorito, comprar calcinhas ou cuecas de algum personagem que seu filho goste, ler histórias para a criança ou colocar músicas para tocar. Outra forma de encorajar a criança é deixar que ela veja a mãe ou ao pai sentados no vaso enquanto ela se senta no penico, pois, assim, ela pode se sentir menos intimidada. É interessante transformar o momento em algo mais divertido.

A opção por um penico costuma ser mais confortável porque oferece melhor apoio aos pés da criança.

Demonstrar com gestos e diálogo o quão feliz e orgulhoso você está com o pequeno é fundamental. Parabenize-o por todas as vezes que ele conseguir chegar a tempo no banheiro.

É imprescindível que tenhamos sempre em mente que escapes acontecem e são comuns. Brigar, falar mal, reprimir ou manter uma postura negativa diante da criança nesses casos não são atitudes que vão fazer com que ela aprenda a fazer certo da próxima vez. Pelo contrário, isso acaba desestimulando. Mantenha-se positivo e incentive

à criança. Diga que da próxima vez ela vai conseguir; Fale que aquele xixi ou cocô foi compreensível porque ela estava muito ocupada brincando. Seja amigável e paciente.

Em alguns casos, os escapes ocorrem porque o desfralde está acontecendo em um período no qual a criança está encarando alguma novidade, como, por exemplo, se ela tiver um irmãozinho prestes a chegar ou estiver começando na escolinha. É importante que o período escolhido seja mais calmo, para que o pequeno não fique ansioso e interrompa o progresso.

Desfraldar uma criança é algo sério e que deve ser realizado de modo adequado. Neste processo de retirada de fradas como vimos acidentes poderão acontecer, então a escola deverá solicitar aos responsáveis que enviem mudas de roupas e calçados suficientes para o dia, incluindo calcinhas e cuecas. E conscientizar aos pais que quando a criança fizer as necessidades na roupa não brigue com essa criança, apenas mostre um leve desapontamento dizendo “você tem que avisar quando quer fazer xixi para eu te levar no banheiro. Agora sua roupa está molhada e vamos ter que trocar com isto não poderá continuar brincando”.

Por uma questão prática prefira fazer o desfralde em épocas quentes do ano, isso facilita quanto às trocas de roupas. Cada criança lida de modo diferente com esse momento tem aqueles que desfraldam rápido e aqueles que precisam de mais esforço.

“É sempre bom lembrar aos pais, assim como a todos que estão em volta, que o amor e o respeito devem ser preservados nesse momento. Deixar de usar fralda é uma grande conquista para a criança e representa uma importante transição. Entretanto, só será correto e sem prejuízos psicológicos quando a natureza do indivíduo for reconhecida e ouvida. Dê tempo ao tempo, não apresse as coisas e faça o seu filho se sentir acolhido, mesmo nos momentos em que faz xixi ou cocô na calça. A natureza é muito sábia e o carinho é essencial”, conclui a pediatra Ana Cristina Zollner.

Professoras de Educação Infantil: Ana Carina Gomes e Claudia Prestes

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