Crítica – The Handmaid’s Tale

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Distopia nos alerta para as dores de um futuro intolerante

Imagine um pais que enfrentou uma enorme crise ética e moral. Percebendo esta oportunidade, grupos conservadores e religiosos formaram uma aliança para exterminar o dito mal. Chegando ao poder passaram a renegar as modernas legislações e costumes. Aos poucos implementaram seus dogmas morais como única ordem e passaram a governar com mão de ferro, subjugando as minorias. Pode até parecer, mas não estamos falando de nenhum lugar da América do Sul, ou mesmo do irmão ao Norte. Na verdade este é o enredo de The The Handmaid’s Tale, série do canal Hulu que está na terceira temporada. O programa vem se consagrando e, no Brasil, está à disposição no Streaming Globoplay. Neste período de filmes fracos no cinema, vale a pena dar uma passeada no universo das Aias. Na visita perceberemos que seu mundo é assustadoramente parecido com o nosso.

O homem que crê

The Handmaid’s Tale conta uma história distópica, baseada no livro homônimo, lançado em 1985, pela canadense Margaret Atwood. Neste universo as taxas de fertilidade caíram assustadoramente por conta da poluição e das doenças sexualmente transmissíveis. A sociedade entra em colapso devido ao desaparecimento das crianças e a possibilidade de extinção da humanidade. Percebendo o caos um grupo de ultradireita consegue tomar o poder de uma parte do território dos Estados Unidos. O novo país é chamado de Gilead. Seu governo é totalitário, centralizador, militarizado, brutal e teocrático. A religião é seu principal parâmetro. Para buscar a solução para os problemas que a população apresenta, os governantes buscam respostas nos textos bíblicos, implementando-os de forma literal e não como parábolas.

Preconceito ao extremo

Para reorganizar Gilead os governantes criam castas. Estas são mais fortemente percebidas junto as mulheres. Elas são proibidas de trabalhar, possuir propriedades, controlar dinheiro ou até mesmo ler. As mulheres são divididas em Esposas (dos governantes), as domésticas Martas, as doutrinadoras Tias e as submissas Aias. As últimas são as poucas mulheres que continuam férteis. Baseados em um versículo bíblico, os governantes passaram a escravizar as aias para que, em um ritual mensal, estas sejam inseminadas (estupradas) pelos seus “anfitriões”. A cerimônia conta com a participação da própria esposa, pois “sem seu envolvimento não funcionaria”. Este absurdo teria o objetivo de tentar gerar crianças para os donos da casa e para a continuidade da espécie.

Sobreviver é preciso

Neste mundo sombrio somos apresentados a relutante June Osborne. Mesmo sendo uma mulher independente, antes do golpe, ela foi transformada na Aia Offred. O nome significa”de Fred”, na tradução para o português. Ele é utilizado porque ela foi atribuída à casa do Comandante Fred Waterford e sua esposa Selena. Lá ela terá que se submeter as duras torturas e leis de Gilead, escondendo sua inteligência e todas habilidades da vida anterior, para tentar sobreviver. Sua continuidade é fundamental para que sua filha seja resgatada daquela ditadura e levada ao Canadá. O país ao norte ainda é livre. Foi para lá que o marido de June, Luke, conseguiu fugir para ensaiar alguma resistência no exílio.

Receita para o Caos

The Handmaid’s Tale tem conseguido uma boa recepção de crítica e público devido ao ótimo texto que retrata a dor que a retirada dos direitos podem causar para todos seres humanos, em especial as mulheres e minorias. É impressionante assistir como a construção da ditadura acontece. Na receita apresentada estão uma completa decadência do meio político, o desespero da população que não enxerga soluções, um messias que promete trazer a ordem utilizando a força se preciso, a utilização literal de textos religiosos para referendar as ideias totalitárias e, por último, a retirada brutal de direitos dos que podem oferecer algum tipo de oposição.

Imputando Palavras

É interessante assistir na série as situações que levam o Estado a enforcar pessoas e as colocar dependuradas, como exemplo, nas ruas. No início os governantes buscam nas escrituras trechos que justifiquem suas ações. Posteriormente a própria Bíblia passa a ser utilizada como livro legal, sendo considerada inclusive como letra da lei, em um julgamento que acontece n a segunda temporada. Mesmo com a forte discussão religiosa a autora garante que nunca pensou em criticar a fé de ninguém, mas sim abordar os perigos do totalitarismo, de cunho espiritual ou não.

Paleta de Dores

A série também é muito boa pela sua qualidade estética. Embora não se utilize de efeitos visuais grandiosos é interessante a paleta de cores e o figurino das divisões de castas. As Aias usam Vermelho, da cor do pecado. As Esposas vestem azul, quase angelical. As Marthas e Tias vestem-se com um marrom sujo, de quem precisa colocar a mão na massa. Nos cenários, as ruas, são cheias de muros com cadáveres de oposicionistas enforcados. Também chama a atenção a desfiguração de símbolos americanos atuais, como o obelisco da independência, transformado em uma cruz, ou a estátua de Abraham Lincoln, completamente destruída, em frente ao Congresso Americano.

Assistir para não repetir

Vale muito assistir The Handmaid’s Tale, tanto pela qualidade do roteiro, quanto pela apresentação visual e pelos questionamentos políticos que oferece. A série é importante para entendermos como a humanidade já caminhou para regimes parecidos. Isto aconteceu na época do Fascismo Italiano, do Nazismo Alemão e do Socialismo Soviético, apenas para citar os exemplos mais conhecidos. Mais que um entretenimento, que a jornada de June nos faça refletir. Que nosso mundo nunca mais que chegue próximo a momentos tão cruéis. Que as ditaduras e mundos distópicos fiquem reclusos a tela de TV, apenas para nos lembrar a dura realidade que pode levar a sobreposição violenta de um ser humano sobre outro.

Trailers

https://youtu.be/TSSyU2uEusQ https://youtu.be/EnyqrbC8EtQ

Elenco, citações e referências

June Osborne / Offred – Elisabeth Moss, Nós, 2019

Comandante Fred Waterford – Joseph Fiennes, Shakespeare Apaixonado, 1998

Serena Joy Waterford – Yvonne Strahovski, O Predador, 2018

Tia Lydia Clements – Ann Dowd, Hereditário, 2018

Lucas “Luke” Bankole – O. T. Fagbenle, Viúva Negra, 2020

Nick Blaine – Max Minghella, Espírito Jovem, 2018

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