Crítica – SEE

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Apple TV se apresenta com empolgante ficção sobre futuro distópico

Ensaios sobre a cegueira foi um best-seller do escritor português José Saramago, do ano de 1995. Nele uma epidemia se abate sobre a humanidade, tirando a visão de praticamente todas as pessoas, exceto uma mulher. Esta passa a ter um diferencial para sobreviver em um mundo onde os que vão ficando cegos acabam segregados. Aos poucos a sociedade torna-se caótica. Aqueles que dispõe de mais condições de sobreviver com a cegueira, utilizam seus dons para subjugarem os outros, roubando, violentando e escravizando. O livro gerou um ótimo longa metragem homônimo em 2006. Este foi dirigido pelo brasileiro Fernando Meireles, e estrelado por grandes astros como Juliane More, Mark Rufallo, Gael Garcia Bernal e Danny Glover. Agora imagine este mesmo mundo, trezentos anos no futuro, com os humanos adaptados a viver com a falta de visão. Esta é a premissa da série “SEE”, do novo canal de Streaming Apple TV. A série não se baseia no romance de Saramago, mas é impossível assistir ao programa da telinha, sem lembrar do filme.

Cegueira Contagiosa

Em SEE, uma grande epidemia também se abateu sobre a humanidade. Sobraram em torno de dois milhões de humanos, espalhados pela terra. Aqueles que sobreviveram perderam completamente a visão. Sem seu principal sentido, a sociedade teve que recomeçar praticamente do zero, voltando a idade da pedra lascada. Neste contexto é apresentado o guerreiro Baba Voss, vivido por Jason Momoa. Ele comanda o exército de uma tribo que está sendo atacada. Na batalha descobrimos que a humanidade aprendeu a utilizar os seus outros sentidos. Agora existem guerreiros farejadores, sensitivos e com audição desenvolvida.

Fugindo as Cegas

Após barrar um ataque a sua tribo, Baba Voss descobre que o objetivo dos inimigos era encontrar o fugitivo Jerlamarel. Este é caçado por afirmar que possuí o dom da visão. Nesta sociedade isto é um pecado mortal, principalmente para a tribo invasora. A rainha dos estrangeiros defende que foi a visão que causou a corrupção e destruição do mundo. Ela prega que todos que desejam recuperar este dom, devem morrer na fogueira do deus luz.

Visão de Pai

Baba Voss, por sua vez, tem especial interesse por Jerlamarel. O fugitivo é pai dos filhos da companheira de Voss. Faz pouco tempo que a garota chegou na tribo de Baba. Ela veio gravida de gêmeos e logo começou um relacionamento com o principal guerreiro da comunidade. Com a possibilidade de os inimigos retornarem, Voss decide convencer seus compatriotas que é melhor fugir do local onde estão sitiados. Ele esforça-se para isto, pois, se seus filhos adotivos tiverem o dom da visão, não será possível esconder esta benção. A dúvida é se o povo aceitará que existam pessoas com tamanha superioridade, ou os condenarão a fogueira? São questões que este líder deverá descobrir no transcorrer da série, enquanto foge para garantir a sua vida, de sua esposa e, principalmente, das duas crianças.

Comparando Visões

Embora esteja posicionado centenas de anos após o livro de Saramago, não existe como não comparar SEE com Ensaios sobre a Cegueira. A diferença óbvia é que a primeira obra é mais contemplativa enquanto a segunda é bastante aventuresca. No entanto, ambas as tramas trabalham os dogmas que a humanidade possivelmente quebraria, se fosse retirado um sentido tão importante quanto a visão. A transferência de poder para quem tem mais capacidade de sobreviver, é a maior semelhança entre as duas realidades. Como SEE encontra-se num espaço temporal futuro, é possível ver algumas adaptações dos guerreiros já evoluídos. Isto vai desde a sua divisão em novas classes, até a transformação na forma de lutar. Os guerreiros do futuro cantam e gritam para localizar os parceiros enquanto batalham, por exemplo.

Enxergando o Futuro

O impacto da existência de alguém que possa ver, em ambas as produções, é muito interessante. Em Ensaios, a visão da mulher é um implemento que possibilita que os cegos possam fugir de seu cárcere. Já em SEE a possibilidade de enxergar fornece aos gêmeos a condição de acessar um instrumento importantíssimo para o desenvolvimento da sociedade: o conhecimento. Graças a sua visão eles recebem de seu pai biológico uma caixa de livros, entregue aos doze anos, que os permite aprender novíssimas tecnologias, como o arco e flecha. Isto, entre tantas outras invenções, os coloca acima de seus compatriotas.

Olhar Feminino

Em SEE é interessante também assistir como algumas lutas da sociedade simplesmente se desfizeram frente a situação inóspita. Em dado momento a esposa de Baba Voss dispara a seguinte frase: “prefiro um homem que me dê segurança a um que me escute”. É a subversão total do discurso feminista da atualidade, algo que, esperamos, seja recuperado pela gêmea guerreira, no transcorrer da série.

Briga de Foice no Escuro

SEE é um ótimo programa: dinâmico, instigante e questionador. Faz valer muito os R$ 9,90 da mensalidade da Apple TV. Vale lembrar que a primeira semana do Streaming é gratuita, como na maioria dos catálogos da internet. Certamente, além da experiência de uma boa ficção científica, vale destacar o acirramento da disputa entre os serviços de audiovisual na web. Netflix, Apple TV, Disney +, Amazon Prime, DC Universe, Globo Play, todos buscam um espaço maior junto ao público. Certamente isto fará que melhores produtos sejam entregues aos espectadores, graças a concorrência. Quem não tiver visão para enxergar o que os fãs desejam, acabará sendo entregue a escuridão de um canal sem acesso ou ficará perdido, na idade da televisão de tubo. Pior ainda, muitos catálogos sofrerão sem ter um Baba Voss para defender a vida de seu canal da chegada iminente de tribos inimigas.

Trailers

Elenco, Citações e Referências

Baba Voss – Jason Momoa, Aquaman 2018

Queen Kane – Sylvia Hoeks, O Melhor Lance, 2013

Paris – Alfre Woodard, O Rei Leão, 2019

Maghra – Hera Hilmar, Máquinas Mortais, 2018

Tamacti Jun – Christian Camargo, Guerra ao Terror, 2008

Kofun – Archie Madekwe, Midsommar, 2019

Haniwa – Nesta Cooper, The Miracle Season, 2018

Gether Bax – Mojean Aria, Hybrids, 2015

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