Covid-19 e seus desafios nas relações

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Imagem ilustrativa divulgada na internet

Em função do isolamento e das reduções dos compromissos pessoais, conviver de uma forma muito mais intensa com as pessoas da família e encontrar serenidade em casa – aquele lugar que costuma ser o porto seguro e refúgio – tem se mostrado um desafio para muitas pessoas, isto porque as diferenças causam inúmeros conflitos e a tolerância está sofrendo os impactos dessa nova rotina.

Aceitar as diferenças, cultivar o amor e a generosidade com as pessoas com quem a gente convive, principalmente naqueles momentos em que a gente estaria facilmente fazendo uma crítica ou criando um ressentimento, entendendo que muitas vezes aquilo que nós vemos como imperfeição no outro na verdade é aquilo que o faz ser especial e único, parece ser uma proposta bonita de se ler mas difícil de aplicar, mas te digo… é possível.

Há algum tempo, li um livro que falava sobre essa proposta como uma forma de amor. Gostaria de compartilhar com vocês uma história que a autora conta no livro: se trata de uma viúva no dia do funeral do seu marido. Na história, essa senhora se levanta, vai até a frente da capela pra fazer o discurso fúnebre e comenta que diferente dos funerais comuns,  ela não vai elogiar o marido, porque todos que estavam ali já tinha um feito isso, mas que ao invés disso, ela queria falar sobre algumas coisas desconfortáveis. E então, ela cita um exemplo que em geral é motivo de conflito frequente entre casais: o ronco do marido durante a noite. Ela comenta também que isso costumava atrapalhar muito o sono deles, que o marido chegava a acordar e perguntar que barulho era aquele e que ela gentilmente, respondia que era apenas um cachorro, dava alguns tapinhas carinhosos nas costas dele, ajeitava as cobertas e ele voltava dormir. O que chama a atenção nessa história é que ela finaliza dizendo algo como “pode parecer engraçado pra vocês, mas no auge da doença dele, esse som me confortava e me lembrava que ele estava vivo. No fim são essas pequenas coisa que você se lembra,  as pequenas imperfeições que fazem com que ele seja perfeito para você. “

Já compartilhei essa história com vários pacientes em consultório porque eu acho que mais difícil do que encontrar relacionamentos saudáveis, é preservar eles quando os encontramos e muitas vezes essa dificuldade se dá pela intolerância às diferenças,  pela dificuldade de comunicação, pela paciência que não existe, pela dificuldade em enxergar a singularidade no outro….coisas bem evidentes nessa época de isolamento.  Uma das coisas que precisamos ter em mente, é que mesmo que a gente conviva com pessoas parecidas com a gente em um nível emocional e espiritual ou cognitivo,  é muito provável que elas tenham características que destoam das nossas e que a gente gostaria que fossem diferentes. Isso porque fomos condicionados a esperar perfeição tanto de nós mesmos quanto dos outros e aqui mora o perigo de uma frustração e insatisfação frequente, quando poderíamos na verdade aproveitar as diferenças e as imperfeições como estímulos para crescimento pessoal e das relações.

A abordagem teórica que utilizo nos meus atendimentos compreende que a maneira com que enxergamos as situações influencia as nossas emoções, percepções e comportamentos e assim às vezes uma pequena mania do outro pode facilmente se transformar em uma dor de cabeça. Fazendo uma aproximação da reflexão da história da viúva acima contada com a teoria que utilizo no consultório, o que eu quero comentar é que aprender a reavaliar as imperfeições das pessoas com quem convivemos ao invés de alimentar a ilusão de que a relação só será satisfatória quando o outro estiver se comportando de maneira perfeita e de acordo com o que esperamos dele, é fundamental para a boa convivência.  É preciso  aceitar as diferenças ao invés de tentar solucionar algo que não precisa de solução,  é importante aprender a abraçar as opiniões e pontos de vista diferentes dos nossos como algo que também merece respeito e espaço na relação.

Agora pense comigo: se eu interpretar que um comportamento que eu não concordo é na verdade proposital e tem o objetivo de me provocar, provavelmente eu vá me sentir incomodada e vá reagir de maneira prejudicial à relação e vá provavelmente dar start em um conflito. Agora, se eu me dispuser a parar refletir e questionar o real motivo por trás do comportamento das pessoas com quem eu convivo, as chances de eu estabelecer relações saudáveis e tranquilas é muito maior. Faz sentido isso pra você?

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