Carnaval é muito mais que samba: é a voz do povo, é a vez do morro

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Fotos: divulgadas na internet

Campeã do carnaval carioca celebrou negros, índios e pobres, recontando história e dando voz (e vez!) aos “fracos e oprimidos”, com menção a morte de Marielle Franco, que completa um ano nesta quinta (14 de março) sem prisão dos assassinos

O desfile das campeãs – realizado na madrugada deste domingo (10) na Marques de Sapucaí, Sambódromo do Rio de Janeiro, com os desfiles da Mangueira, Mocidade, Salgueiro, Portela, Vila Isabel e Viradouro -, encerrou o Carnaval 2019. Mais que colocar um ponto final na maior festa popular brasileira (cujas reverberações políticas seguirão por mais algum tempo), o desfile representou um novo grito de protesto e contestação por parte dos “fracos e oprimidos”, das minorias que teimam em se fazer ouvir e não aceitam se calar.

– O desfile da Mangueira é um recado para a sociedade brasileira, que tem passado por um momento que não reconhece a força da identidade indígena, da identidade negra e dos pobres deste país – declarou o carnavalesco Leandro Vieira. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2019/noticia/2019/03/10/e-um-recado-para-a-sociedade-diz-carnavalesco-da-mangueira-escola-fechou-o-desfile-das-campeas-no-rio.ghtml

A fala fez eco a outra declaração dada por ele: na quarta-feira de cinzas (13), logo após a apuração (e ainda sob o impacto da emoção), Vieira havia dito que o diferencial deste ano é que, mais do que nunca, havia sido um “carnaval de representatividade”.

– É um recado político para o país todo e também para o presidente. O carnaval é a festa do povo. É arte e cultura popular. https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/carnaval/2019/noticia/2019/03/06/mangueira-e-a-campea-do-carnaval-2019-do-rio.ghtml

De fato, o carnaval é isso tudo e muito mais que samba: é a voz do povo, é a vez do morro. É a soberania popular. É o momento (um dos raros e poucos instantes) em que “os fracos e oprimidos” têm oportunidade de contar sua versão dos fatos, como apontado pelo antropólogo Roberto da Matta https://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_DaMatta, um dos que salientou a função sociológica (sócio lógica) do carnaval, tema abordado em livros como “Carnavais, malandros e heróis (1979); Universo do Carnaval: imagens e reflexões (1981); O que faz o brasil, Brasil (1984); A casa e a rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil (1984). As obras escritas pelo professor da PUCRJ e Professor Emérito da Universidade de Notre Dame (referência em Ciências Sociais e antropologia no Brasil), são valiosas e podem ajudar a interpretar e compreender o jogo de forças (e a disputa de poder) que acontece no Rio e no Brasil, num momento em que novas versões da história começam a ganhar voz e vez.

‘A liberdade não veio do céu e nem das mãos de Isabel: é um dragão no mar de Aracati’

Em suma, foi isso que a Mangueira fez neste carnaval: com suas luxuosas fantasias e rebuscadas coreografias, a escola da favela surgida no século 19 na área central do Rio de Janeiro https://pt.wikipedia.org/wiki/Mangueira_(Rio_de_Janeiro) recontou a história brasileira sob o ponto de vista das minorias: índios (que foram dizimados), negros (que foram escravizados) e pobres (que são explorados) puderam dar seu “catártico” grito de desabafo. E, quem sabe, mais uma vez lutar por sua

alforria e liberdade, que (como afirma o samba-enredo) “não veio do céu e nem das mãos de Isabel (sendo) um dragão no mar de Aracati”.

– Passamos a mensagem que a gente queria, não só pro Brasil, mas para o mundo inteiro, a valorização da nossa raça, os verdadeiros desbravadores deste país – comemorou a rainha de bateria Evelyn Bastos, destacando que a escola exaltou a história do povo negro.

Ela fez questão de lembrar o assassinado de Marielle Franco, a vereadora negra do PSOL que denunciava a milícia, a “negra favelada” que tanto incomodava as “máfias” que (des)governam o Rio.

– Precisamos de justiça. Quando falamos de Marielle, falamos de uma mulher negra que venceu na vida e lutou pelos outros. Ela significa coragem. Infelizmente foi assassinada e nós não queremos que outras mulheres negras sejam caladas: ninguém pode ter medo de falar o que pensa – desabafou a rainha da Mangueira.

Morte de Marielle completa um ano nesta quinta (14) sem criminalização dos assassinos

O recado tem um valor ainda maior porque é nesta quinta-feira (14 de março) que a morte de Marielli Franco completa um ano. E mesmo que todos saibam o que (e quem) está por trás do homicídio, a falta de condenação dos culpados enche de indignação o povo carioca das favelas; afinal, estamos diante de uma luta (de classes!) entre “os favelados dos morros” e os “ricos dos condomínios de luxo da zona sul e oeste”.

Entre eles está o presidente Bolsonaro (será que, como estão dizendo por aí: Jair já era?). Morador de um condomínio de luxo da zona sul carioca, da janela de seu apartamento Jair diariamente vê as favelas erguidas no costado dos morros. Foi de lá que recebeu um claro e contundente recado: até pode ser o presidente do Brazil, mas de modo algum é o presidente do povo brasileiro. Carece de legitimidade popular. Ele que, ladeado por seus fiéis filhos, vive de costas (e as custas) do povo e das favelas, com suas mazelas sociais e degradações antropológicas.

(Não vale aqui perder tempo comentando as postagens feitas pelo presidente no Twitter com o claro objetivo de denegrir a imagem do carnaval de rua brasileiro. https://vejasp.abril.com.br/cidades/bolsonaro-video-carnaval-bloco/. E nem lamentar o fato de ele ter vetado a TV Brasil de transmitir o Desfile das Campeãs, como vinha ocorrendo nos últimos anos (como muitos, o presidente parece não compreender que, numa democracia, o público não pertence ao governo, mas sim à sociedade) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/03/apos-tres-anos-exibindo-desfiles-das-campeas-tv-brasil-cancela-programacao.shtml.

Mangueira contou “a história que a História não conta”. E isso incomoda muita gente…

Enquanto os órgãos de segurança seguirem fazendo vista grossa ao fato de que um dos milicianos suspeitos de ter matado Marielli tinha a mãe e a mulher lotadas no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro, https://brasil.elpais.com/brasil/2019/01/22/politica/1548165508_401944.html, não será fácil conter a indignação popular.

Sorte que estamos no Brasil, onde a ira vira samba e a raiva se dilui na festa carnavalesca: fosse num desses países frios da Europa (ou mesmo nos EUA), e alguns atentados já teriam ocorrido. E quem conhece o Rio de Janeiro – onde a desigualdade social brasileira se expressa na arquitetura da cidade,

com uma proximidade surreal entre o luxo e a miséria– entende bem do que se está falando. Enquanto o Brasil não reconhecer sua diversidade, não será uma nação. Apenas mais uma “republiqueta latino-americana” governa por populistas que se apoiam no bastão da ignorância e no elitismo que a classe média cultiva…

E para quem ainda não entendeu o recado dado pela Mangueira, basta dar uma olhadinha na letra do samba enredo “História para ninar gente grande” da escola https://www.letras.mus.br/sambas/mangueira-2019/ para perceber que essa “silenciosa luta de classes” que acontece no Brasil tem potencial para se transformar numa guerra civil (ela já não estaria simbolicamente acontecendo?).

‘É na luta que a gente se encontra’: Mangueira ‘tirou a poeira dos porões’ e expôs ‘os versos que o livro apagou’

 

Há um recado claro (mensagem mais que subliminar) no samba da mangueira que enreda muita gente: diante do atual estado de coisas, talvez seja preciso não só recontar a história a partir dos “fracos e oprimidos” (como fez a Mangueira), mas tentar reescrevê-la. Com resistência, luta e bravura, como fizeram os cariris do sertão, os tamoios do litoral e personagens como Sepé Tiaraju (que lutou pelos índios guaranis contra os espanhóis e portugueses), Zumbi dos Palmares e o jangadeiro negro cearense Chico da Maltide, entre outros heróis anônimos ausentes das versões oficiais da História, mas presentes na “História que a história não conta” e que foi contada (em ritmo de samba e com direito a muita batucada) pela Mangueira. http://www.oagora.net/painel-rotativo/indios-negros-e-pobres-mangueira-e-a-campea-do-carnaval-2019-do-rio-de-janeiro/

Sim, a Mangueira “tirou a poeira dos porões”. Contou “a História que a história não conta / o avesso do mesmo lugar (pois) é na luta que a gente se encontra”.

Trazer à tona “os versos que o livro apagou (…) com sangue retinto pisado”, foi um fato sociológico (sócio lógico) de extremo valor num momento em que as raízes do Brasil (para mais informações leia: “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda https://fontehistorica.wordpress.com/tag/raizes-do-brasil-resumo/ estão sendo arrancadas. Por isso que a homenagem aos “caboclos de julho” (pesquise na História que a história não conta para saber quem foram eles!) e a “quem foi de aço nos anos de chumbo” é tão significativa.

Como diz o samba-enredo da Mangueira (na politicaria tupiniquim, a escola está sendo “avacalhada” pela direita e “endeusada” pela esquerda), talvez tenha mesmo chegado a vez de “ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês” e outras vozes que tentaram ser caladas num país em que “os pouco que ganham muito” fazem de tudo para impedir a mudança de um estado de coisas que não favorece em nada aos “muitos que ganham pouco”.

Sim, não há dúvida: como demonstrou o antropólogo Roberto da Matta (e como mostrou a Mangueira), o carnaval é muito mais que samba. Afinal, como destaca a música “O Mistério do Samba”, da banda Mundo Livre S/A https://www.ouvirmusica.com.br/mundo-livre/206974/, o “samba não é do playboy, o samba não é liberal, o samba não é do gugu, o samba não é do faustão; o samba não é do bicheiro, o samba não é da cerveja: como reza toda tradição, é tudo uma grande invenção”…

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