Brumadinho ou ‘Brumadinheiro’: Quanto vale um rio?

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No ano em que documentário sobre Mariana chega aos cinemas, Brasil sente efeitos de novo desastre ambiental: Brumadinho, que completou 2 meses nesta segunda, deixando centenas de mortes e rastro de poluição que destruiu o Rio Paraopeba e já contamina o São Francisco

O Brasil está matando seus rios. É o que se pode dizer de uma país que, nos últimos três anos, presenciou dois dos maiores desastres ambientais de sua história: o de Mariana, em novembro de 2015, quando mais de 43 milhões de m³ de lama contaminada com rejeitos da mineração vazaram da barragem do Fundão; e o de Brumadinho, em janeiro de 2019, quando a quantidade de lama tóxica foi menor, mas o saldo de mortes humanas foi bem maior: 212 contra 19 de Mariana.

Mas o que mais preocupa não são tanto as mortes de seres do reino animal (homens, peixes e exemplares da fauna silvestre) e sim a dos rios que fornecem água para diversas cidades mineiras e do Espírito Santo. A água, esse bem precioso, que era considerada pelos povos nativos como o “sangue do Terra”.

https://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2019-03-25/dois-meses-brumadinho.html

No caso de Mariana, um dos mais importantes rios do sudeste brasileiro foi sacrificado: o Rio Doce, que nasce nas serras mineiras e, após 650 KM, deságua no litoral norte capixaba, em Regente, praia que já foi “point” mundial de surfistas que vinham em busca da onda perfeita (formada exatamente pelo encontro das águas do Rio Doce com o mar). Hoje, a vila de pescadores está tão morta quanto o rio: os barcos dos pescadores artesanais estão apodrecendo nas margens onde os pássaros já não pescam mais e as pousadas antes lotadas por surfistas e turistas de várias partes do mundo fecharam suas portas.

https://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1180473.1449081357!/index.html

Cabe lembrar uma interessante “ironia do destino”: o Rio Doce foi quem deu nome a Vale (do Rio Doce), a mineradora responsável pelas tragédias: a empresa já foi condenada a pagar multas bilionárias para reparar os danos, mas até agora ainda não quitou nenhuma. E em janeiro o Ministério Público do Trabalho (MPT) de Minas Gerais solicitou bloqueio das contas da Vale de R$ 1,6 bilhão, mas a Justiça acatou parcialmente a indicação do MP e determinou bloqueio de R$ 800 milhões.

 

É diante de tal situação que surge a questão (que não quer calar): quanto vale um rio? Qual o valor da água? Pergunta importante num momento me que diversos países enfrentam escassez hídrica e que esse recurso se torna cada vez mais importante, fazendo lembrar o significado que os povos nativos lhe atribuíam: os rios eram considerados as veias por onde escorre o sangue (água) da terra.

https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/desastre-ambiental-em-mariana/noticia/quantidade-de-lama-que-vazou-de-barragem-em-mariana-equivale-a-um-pao-de-acucar-diz-presidente-da-fundacao-renova.ghtml

No caso de Brumadinho, o rio assassinado foi o Paraopeba, um dos principais afluentes de um dos mais destacados rios brasileiros: o São Francisco, que faz parte da história e da cultura do país, sendo fundamental para as lavouras e pastagens que crescem em seu fértil vale.

Conforme dados da Fundação SOS Mata Atlântica, os rejeitos da mineração provocaram elevada turbidez (transparência da água), que está acima dos limites legais definidos pela Resolução 357

do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) para a qualidade da água doce superficial. Em alguns locais, esse indicador chegou a ser verificado entre duas e seis vezes mais que o permitido pela resolução. Além disso, as concentrações de ferro, manganês, cromo e cobre também estavam acima dos limites máximos permitidos pela lei.

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/03/21/politica/1553194959_991458.html

O relatório foi divulgado no último 22 de março, quando foi celebrado o Dia Mundial da Água. A data foi criada pela ONU em 1993 para falar sobre o abastecimento de água potável e a importância de conservação, preservação e proteção da água, fontes e suprimentos de água potável por parte de governos, agências internacionais, organizações não governamentais e setor privado.

É exatamente isso o que não tem sido feito pelos setores público e privado: conservar, preservar e proteger a água. É o que mostram – aliás: escancaram! – esses dois desastres ambientais brasileiros do século 21: Mariana e Brumadinho; ou Brumadinheiro, como certa vez escreveu o corretor ortográfico do WhatsApp, “sem querer” indicado o verdadeiro motivo que pode estar por trás dessa e outras tragédias ambientais que ocorrem no Brasil e no mundo: a sede (ganância) pelo dinheiro.

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/documentario-ainda-inedito-sobre-a-tragedia-de-mariana-preve-a-de-brumadinho.shtml

É nesse sentido que vai o documentário “Amigo do Rei”. O filme dirigido pelo cineasta André D’Elia tem mais de duas horas de duração e conta em detalhes o episódio de Mariana. Através de entrevistas com geólogos, engenheiros, biólogos e outros especialistas, o documentário investiga as causas da tragédia e a negligência depois do episódio. A previsão é que estreia nos cinemas brasileiros a partir do segundo semestre.

O filme vem em boa hora, afinal, aos poucos a tragédia de Brumadinho começa a cair nas “brumas do esquecimento”. É em momentos assim que nunca é demais perguntar: quanto vale um rio? Qual o valor da água?

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