Bolsonaro será mesmo o ‘Jânio Quadros do século 21’?

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Vazamento de áudios da rusga com Bebianno expõe presidente ‘que só fala pra Record’ e remete a versos de Cazuza: ‘Eu vejo o presente repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades: o tempo não para’

Em janeiro a Revista Veja publicou matéria comparando o atual presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao ex-presidente Jânio Quadros, que governou o Brasil por 7 meses em 1961. Eleito com um discurso anticorrupção (a imagem da vassoura que iria limpar o Brasil da roubalheira se tornou clássica), Jânio não resistiu a seus próprios atos tresloucados e acabou renunciando. O que sucedeu está gravado na História: o vice João Goulart (Jango, que flertava com a China comunista) não conseguiu assumir, Brizola criou a Rede da Legalidade, o país enfrentou anos de instabilidade e os militares assumiram o poder em 1964 (golpe para alguns, revolução para outros).

Como se o futuro repetisse o passado e o mundo fosse mesmo “um museu de grandes novidades” – parafraseando Cazuza: “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades: o tempo não para…” -, os atos (tresloucados?) de Bolsonaro neste início de mandato começam a fazer crer que talvez seja realmente possível a confirmação da “profecia” feita pela revista do grupo Abril neste início de ano, levantando a questão: será que, desse jeito, Bolsonaro realmente conseguirá completar seu mandato? Porque, como vaticinou Cazuza, realmente o tempo não para – e ele parece estar correndo rápido demais para o novo presidente do Brasil…

Num país onde dois (Collor e Dilma) dos últimos quatro (salvaram-se FHC e Lula) presidentes foram defenestrados antes de completar quatro anos, é preciso ficar atento e forte (como na canção “Divino Maravilhoso”, de Caetano Veloso): “É preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte”… Vários indícios apontam para a possibilidade de Bolsonaro não conseguir completar seu mandato e o vazamento dos áudios de sua rusga com o agora ex-ministro Gustavo Bebianno – nesta terça (19), pela Revista Veja – escancara um cenário de instabilidade que começa a fragilizar o governo de um presidente que ainda nem completou os famosos “primeiros cem dias no poder”. Ainda mais que – neste conhecido cenário de disputa pelo poder e guerra de interesses que caracteriza a política brasileira – há um vice-presidente que conta com a simpatia de boa parte da sociedade (especialmente entre empresários e investidores): o general Mourão, conhecido no exterior como “o adulto na sala”. Será que, respeitando a hierarquia militar, o General colocará o Capitão no seu devido lugar?

Não é fácil governar sem a mídia e ainda mais difícil é querer governar contra ela…

Claro que há um ingrediente nisso tudo que não pode ser ignorado: a guerra de Bolsonaro com grandes conglomerados midiáticos, como a Rede Globo, a própria Revista Veja e, especialmente, o Jornal Folha de São Paulo: repare que a crise com Bebianno é reflexo de outra crise, a dos candidatos laranjas do PSL que contaram com verbas milionárias do Fundo Partidário (dinheiro público), conforme reportagem veiculada pela Folha em 9 de fevereiro que inclusive trouxe a temida Polícia Federal (aquela mesma que prendeu o Lula e vários grandes empreiteiros brasileiros) para o jogo (a candidata pernambucana do PSL que recebeu R$ 400 mil depôs nesta quarta à PF).

No contexto midiático-cibernético do século 21, não é fácil governar sem a mídia e ainda mais difícil é querer governar “contra ela”. E se o presidente que só fala pra Record imaginou que poderia governar um país com 200 milhões de pessoas (de várias etnias, crenças e preferências ideológico-partidárias) sem estabelecer um acordo tácito de boa convivência com a mídia, talvez já esteja mais que na hora de ele rever sua posição; afinal, acontecimentos recentes da história tupiniquim (vide impeachment/golpe de 2016) mostram que é de crise em crise que um governo se esfacela. E quem melhor que uma mídia insatisfeita para gerar crises e instabilidades governamentais?

Neste cenário Temeroso – onde o mais temerário é o temor de ser gravado numa conversa informal que logo ganhará os holofotes das redes sociais online – já há até quem sinta saudades de Michel (muitos são os saudosistas de Lula-Maquiavel, mas isso não é novidade) e defenda a posse de Mourão: já temos o Moro no comando do Judiciário, por que não o seu aumentativo (Mourão) no Executivo?

Coisas de uma República Democrática chamada Brazil!

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