A educação no cenário pós-coronavírus

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As escolas não são mágicas para tirarem das cartolas aulas e atividades online para todos os anos em todas as disciplinas

De repente, sem que pudéssemos acreditar, de um dia para outro, tudo mudou. A pandemia do novo coronavírus chegou até nós sem que estivéssemos preparados, mesmo acompanhando o que acontecia na China e em outros países. Talvez desejando a confirmação de que Deus é brasileiro e nada iria nos acontecer. Mas a realidade foi outra. Nossa vida mudou em poucos dias e sem saber por quanto tempo tudo isso vai durar.

Neste cenário, as escolas suspenderam as aulas, os alunos estão em casa, alguns pais passaram a trabalhar de forma remota. O distanciamento social está levando para dentro de casa, além do trabalho, o aprendizado, a compra de alimentos e itens essenciais, a ginástica, a sessão de terapia e inúmeras formas de lazer que, intermediadas pela tecnologia, nos mantêm isolados.

Depois de semanas — quem sabe meses — de isolamento, como alunos e professores voltarão para a “normalidade” de suas rotinas nas escolas? Vamos incorporar os novos hábitos de aulas e atividades online? Como estará a saúde mental das crianças e dos profissionais, após esse tempo de distanciamento?

Mesmo com os vínculos mantidos através das redes sociais e tecnologias que nos mantiveram longe-perto, será necessário novo tempo de reconstrução das relações, de reconexão professor-aluno, de afinar a sintonia.

Durante o isolamento social, os alunos da educação infantil e ensino fundamental passaram a ter, pela primeira vez, aulas online, atividades remotas, possibilitadas pelas tecnologias disponíveis. Temos então o encontro de uma geração de crianças e adolescentes nativas digitais com professores ainda presos ao tradicional modelo de ensino.

Ninguém estava preparado para a educação domiciliar: nem escolas, nem professores, nem crianças, nem famílias. As escolas não são mágicas para tirarem das cartolas aulas e atividades online para todos os anos em todas as disciplinas. As mães não são professoras experts em todos os conteúdos. As crianças, também estressadas pelo isolamento, não possuem experiência com aulas virtuais e não compreendem que estar em casa não significa férias.

A suspensão das aulas assim que os primeiros casos de coronavírus começaram a surgir, acreditamos ter sido uma decisão acertada, pois é mais prudente evitar que a doença se propague, do que termos hospitais superlotados, sem condições de atender às vítimas. Diante do risco à vida das pessoas, passar de ano na escola, deixa de ser prioridade. É momento de construirmos uma educação coletiva e mostrarmos para as crianças e jovens, através de ações, quais são, ou

deveriam ser, os valores mais importantes à nossa sociedade. É preciso deixar de lado a individualidade e pensarmos como um todo.

A interrupção das aulas para garantir a segurança não só de alunos, educadores, mas de toda uma comunidade é algo inquestionável, e é também natural a preocupação com o ano letivo. Existe preocupação com a retomada de um ano letivo abalado não apenas no calendário, mas em seu contexto emocional. Ao reabrirem, as escolas receberão professores e alunos que passaram longo período de distanciamento social, vivenciando uma “guerra” pela saúde mundial. Será preciso acolher e escutar.

O legado positivo que poderá vir desse processo é a valorização dos professores. Temos lido diariamente comentários nas redes sociais, desabafos de mães e pais: existe um esgotamento natural. Os alunos estão esgotados, os pais estão esgotados, e aquela animação do começo da quarentena vai dando lugar à falta de paciência. Claro que é muito bonito quando os pais descobrem o processo de aprendizagem dos filhos, mas, no geral, isso tende a se perder com o passar dos dias. Ao acompanhar os filhos, os pais se reconectaram com a complexidade da educação. Ficou muito mais claro para todo mundo como é difícil ser professor. É das profissões mais difíceis e vista pela sociedade de forma equivocada, desimportante. Agora, pais e mães devem redimensionar isso.

A crise gerada por esta doença oferece uma chance de experimentar novas maneiras de fazer as coisas, e questionar velhos hábitos. Não sabemos quanto tempo esse isolamento pode durar, mas precisamos seguir adiante, qualquer que seja o cenário pós-coronavírus. Que possamos pensar nos efeitos disso tudo a longo prazo e repensar o papel da escola e dos professores na volta às aulas. Temos que levar alguma lição do que estamos vivendo, temos que fortalecer nossas relações enquanto escola, família e sociedade, para que aprendamos a ser mais humanos, mais sensíveis.

E ao final desta pandemia, que todos tenhamos a sensação de termos saído mais amadurecidos, pois certamente não vamos mais olhar as formas de ensino da mesma forma.

Artigo escrito pelas professoras da rede municipal de ensino de São Marcos:

Daiane Casarotto Spigolon e Gisele Cátia Carraro

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