Uma cultura que dá trabALHO

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Cultivo manual exige bastante mão-de-obra. Mecanização foi tema de TCC na UCS de Engenheira Agrônoma de São Marcos: ‘A semente cai deitada’

Na terra do alho, junho e julho foram meses de colocar o alho na terra. Foi o que fizeram dezenas de agricultores são-marquenses nesses últimos meses, cultivando uma área acima de 200 hectares. Para isso, driblaram as dificuldades ocasionadas pelas chuvas de junho, que encharcaram as lavouras e complicaram os serviços dos tratores para fazer os canteiros.

“São Marcos já foi o maior produtor gaúcho, mas hoje está atrás de Ipê. Isso aconteceu porque foi reduzindo a área por esgotamento das terras, que já não ficaram mais tão propícias. Porque o alho é um cultivo que esgota rapidamente o solo: na média em 3 anos já não produz mais muito bem”, destaca a Engenheira Agrônoma Rafaela Meneguzzo.

Segundo os dados do IBGE, São Marcos cultivou 224 hectares de alho na última safra: a produtividade média ficou em torno de 7 mil Kg por hectare.

“Em Ipê a produtividade média foi de 12 mil Kg por hectare”, assinala Rafaela.

Engenheira agrônoma Rafaela Meneguzzo e Sandra Meneguzzo em programa temático na São Marcos FM

Aos 23 anos, ela se formou Engenheira Agrônoma pela UCS em 2020. Fez o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre os desafios da mecanização no cultivo do alho.

“Meu TTC foi sobre como poderia mecanizar. Porque o alho tem um lado certo para ser plantado e a máquina não consegue direcionar a semente no solo. Existe a máquina, mas ela não direciona a semente, que cai deitada. Isso causa heterogeneidade na lavoura e um brota antes do outro”, descreve.

Rafaela explica que seu TCC, orientado pelo professor Gabriel Fernandes Pauletti, abordou o posicionamento dos bulbilhos no solo, irrigação e aplicação de silício.

“Foi bem avaliado e valorizado por ser diferente: a maioria dos alunos faz mais sobre fruticultura, sobretudo uva”, revelou.

O fato de ter se criado numa família produtora de alho motivou Rafaela a querer se aprofundar mais sobre o tema.

“Foi muito rico poder estudar sobre algo muito presente no meu dia-a-dia”, comentou.

Seu estudo científico concluiu que existem tecnologias sendo desenvolvidas para mecanizar o cultivo do alho, mas a colocação da semente na posição adequada é um dos principais entraves.

“Media a altura, o tamanho do caule e concluí que com o plantio feito pela máquina dá uma diferença, porque pode demorar mais pra nascer”, afirmou.

Conforme Rafaela, mesmo no plantio manual a colocação da semente na posição certa “já não é 100%”.

“A mão de obra, além de cada vez mais escassa, não é qualificada. O produtor pega as empreiteiras e muitas vezes o pessoal não tem muita prática. Para a colheita tem máquina. É eficiente e uma fonte de investimento interessante para o produtor, que pode comprar e dividir com os demais em aluguel”, pondera a engenheira agrônoma são-marquense.

‘TRABALHO QUE NUNCA ACABA: TERMINA DE VENDER E COMEÇA A VERNALIZAR’

Engenheiro agrônomo Marcos Vinicius Fantin e Sandra Meneguzzo

Como pondera a presidente do Sindicato dos Trabalhadores Agricultores Familiares (STAF) de São Marcos, Sandra Meneguzzo , cultivar alho é um trabalho duro: se a colheita ocorre nos calorões de novembro e dezembro, o plantio é feito na friagem do inverno. Em suma: plantar alho dá muito trabALHO.

“No outro dia a pessoa está toda ‘quebrada’, com dor nas costas por ter ficado um tempão agachada. E depois tem todo serviço de limpeza, pois o mercado é exigente e tem que vender o alho embalado. O produto ganha valor na medida em que o toalete é bem feito e isso conta muito. Então acaba sendo um trabalho anual que nunca acaba: quando termina de vender a safra já tem que colocar a semente para vernalizar e depois começa todo o ciclo do plantio”, lembra.

Sandra ressalta que o alho é uma importante fonte de renda para as famílias agricultoras de São Marcos.

“A dificuldade é mesmo o espaço e por isso muitos migram pras outras regiões, inclusive no campo, na região de Criúva, dos Dalagno e da Mulada”, observa.

O Engenheiro Agrônomo Marcos Vinícius Fantin, que cultiva mais de 5 hectares na Linha Edith junto com seu pai (um dos pioneiros da cultura em São Marcos e que planta alho há cerca de 40 anos), lembra que o frio é fundamental para o cultivo.

“O alho requer temperaturas baixas e precisa de horas de frio para germinar. Por isso se faz a vernalização. Durante o ciclo necessita de umas 700 horas de frio (abaixo de 7º). Como a média de horas de frio na Serra gira em torno de 400 horas, coloca-se em Câmara Fria”, explica.

Conforme os engenheiros agrônomos, é importante fazer rotação de cultura e mesclar outros produtos.

“O ideal é colocar uma leguminosa – como o feijão, que fixa nitrogênio – ou mesmo milho para intercalar, o que pode reduzir a intensidade das doenças”, assinala Rafaela.

Como lembra, um consórcio bastante comum em São Marcos é o feijão no verão e o alho no inverno.

“Como geralmente o feijão é mais para consumo familiar, aproveita o adubo do alho e ocupa a terra, fazendo a rotação”, aponta.

Rafaela diz que o tipo mais plantado no município é o chamado “alho nobre” (popular alho roxo).

“Em São Marcos planta mais o alho nobre, que demanda mais horas de frio e por isso semeia já em fins de maio e início de junho Também têm os semi-nobres e o comum, que tem o ciclo mais curto e pode ser mais tardio, com plantio em julho”, detalha a Engenheira Agrônoma.

PODER MEDICINAL E CUSTO DE PRODUÇÃO DE R$ 50 MIL POR HECTARE

No que diz respeito à relação custo-benefício, Rafaela, Sandra e Vinícius entendem que o preço do alho varia bastante de ano a ano e que a comercialização está ligada às “flutuações do mercado”.

“Já se ganhou mais de 3 reais acima do número. Mas às vezes complica, porque entra alho do centro do país e também da China e da Argentina. Por isso o melhor é ir vendendo aos poucos”, observa a presidente do STAF Sandra Meneguzzo.

O custo de produção é considerado elevado: por ser uma cultura sensível à doenças causadas por fungos, vírus e bactérias, o alho demanda bastante aplicação de agrotóxicos.

“O BNDES calcula R$ 50 mil por hectare”, revela Rafaela, que trabalha na Cresol, cooperativa de crédito que possui linhas de financiamento para o cultivo do alho.

Conforme a engenheira agrônoma, o alho possui inúmeros benefícios para a saúde, reconhecidos desde a antiguidade.

“O alho tem ação antiinflamatória e há registros de seu poder medicinal há muito tempo”, observa, lembrando que o alho pode ser consumido em chás e até mesmo na cachaça, como fazia sua avó.

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