Viva a Uva! Trabalho nos parreirais de São Marcos se intensifica com colheita da Bordô e Isabel

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Safra tem previsão de queda na produção devido ao granizo. Confira trabalho dos agricultores Valter Riboldi, em São Roque, e Marcelino Zanella, no Tiradentes

Fevereiro marca o pico da safra de uva em São Marcos. É neste mês que as duas variedades mais plantadas no município – Bordô e Isabel – amadurecem e ficam prontas para serem colhidas.

– Geralmente a Bordô já é retirada em janeiro; mas neste ano a safra atrasou e só mesmo nas áreas mais próximas das Antas, como nos Polidoros, tinha Bordô madura. A colheita começou pra valer em fevereiro – aponta o Secretário Municipal de Agricultura, Fabiano Varella.

Ele destaca que a safra deste ano está menor, pois os agricultores estão colhendo os cachos que escaparam do granizo de outubro do ano passado.

– Destruiu bastante. Aquele granizo de 31 outubro atingiu em torno de 70% da área e, além de São Marcos, pegou também Campestre e outros municípios da Serra produtores de uva, como Nova Pádua, Nova Roma e Flores da Cunha.

Propriedades e parreirais na Linha Tiradentes, em São Marcos

Fabiano salienta que a principal área produtora são-marquense foi afetada.

– Em São Marcos pegou parelho e só não atingiu aquela parte de São Roque e Pedras Brancas. Mas a região que mais produz, que é a costa do Ranchinho e das Antas, foi bastante afetada: do Tuiuti até a Edith pegou parelho e na Santana destruiu bastante também – detalha.

Fabiano ressalta que, em função da época, houve recuperação de algumas parreiras.

– Mesmo assim vai afetar a qualidade e a graduação. Há muitos ferimentos no grão e isso facilita o aparecimento de doenças, ainda mais que teve bastante chuva em janeiro.

Na foto, Fabiano Varela durante visita a produtores de uva na Linha Tiradentes

Outro aspecto é que a maturação não está parelha.

– Tem grão maduros e outros verdes no mesmo cacho – observa Varella.

Na avaliação de Fabiano, 2019 não vai ser ano bom de uva.

– Há áreas muito danificadas onde prejudica até a próxima safra – pondera.

Conforme o Secretário Municipal de Agricultura, a previsão é de que safra são-marquense de uva seja aproximadamente um terço menor e fique perto de 15 milhões de quilos em 2019. A quantidade é inferior à média histórica do município, que gira em torno de 25 milhões de quilos. Segundo Fabiano, São Marcos possui 1,3 mil hectares de videiras em produção. Ele lembra que o preço mínimo para a Isabel grau 15 aumentou 12% e foi fixado em R$ 1,03 ao quilo.

Agricultor do Tiradentes teve perda de 80% na produção, mas parreiral coberto salvou a safra: ‘Sem seguro não dá pra plantar uva’

Um dos agricultores são-marquenses que teve perdas com o granizo de outubro do ano passado foi Marcelino Zanella. Em parceria com o cunhado, ele cultiva 16 hectares de parreirais nas linhas Rosita, Riauchelo e Tiradentes, onde reside com a família. Cultiva as variedades Bordô, Niágara

e principalmente Isabel, entregando as uvas às vinícolas Campestre da Serra e Serra Gaúcha (Campo Largo).

Zanella disse ao São Marcos Online que em torno de 80% da produção foi perdida.

– Geralmente colho mais de 500 mil quilos, mas neste ano não vai chegar a 100 mil – afirma o agricultor, que cultiva uva há quase 30 anos.

Ele destaca que o parreiral coberto (1 hectare, onde cultiva principalmente a variedade Niágara) “salvou a safra”.

– Na parte coberta não estragou nada e deu uma ótima safra, com produção de umas 25 toneladas. As vendas foram feiras em janeiro e o preço ficou em torno de R$ 3,50 ao quilo – revelou.

Segundo o agricultor, a uva coberta possui menos aplicações de defensivos agrícolas.

– O tratamento é feito todo com produto biológico. Só não é uma uva orgânica pelo adubo do solo – salienta.

No parreiral coberto também há plantio de tomates, em consórcio com as parreiras.

– Fiz esse consórcio porque ainda é parreira nova. O tomate vem embaixo da parreira e é cultivado sem veneno. Produz bastante, um pouco menos por causa da sombra, mas com a pele bem fina – detalha o agricultor, salientando a qualidade dos tomates que crescem à sombra dos parreirais.

Zanella diz que aprovou a plasticultura.

– Vale o investimento e vou fazer mais, ampliando a área com parreirais cobertos. Mas só cobrir não adianta: pra plantar uva precisa saber a técnica e ter conhecimento – observou.

Segundo o agricultor, outro item indispensável é o seguro.

– Sem seguro não dá pra plantar uva. Quem não tem dança feio – resume Zanella, revelando que recebeu em torno de R$ 400 mil da seguradora pela destruição nos parreirais ocasionada pelo granizo.

Em São Roque, Riboldi escapou do granizo e colheu boa safra: ‘Tem que fazer o serviço com amor, dedicação e conhecimento’

Um dos poucos agricultores de São Marcos que escapou do granizo de outubro de 2018 e conseguiu colher uma boa safra de uva neste começo de 2019 foi Valter Riboldi, 57 anos. Em sua propriedade de aproximadamente 70 hectares, que possui em São Roque, ele cultiva cerca de 6 hectares de parreirais; metade com a variedade Bordô e metade com Isabel.

– Esse ano vai dar boa colheita. Calculo uns 150 mil quilos, em torno de 25 mil quilos por hectare – revelou o agricultor ao São Marcos Online, que visitou seus parreirais.

Ele costuma vender a uva que cultiva às vinícolas Sinuelo, Meneguzzo e Luvison, de Mato Perso (Flores da Cunha). Pelo que disse, a Bordô dá mais lucro, mas a Isabel rende mais.

– Comecei a cultivar uva com meu avô, que era de Flores da Cunha. Desde guri sempre lidei com parreirais e até hoje nunca perdi uma safra por granizo. Só por geada, há quatro anos – recorda.

Riboldi considera a viticultura uma boa atividade agrícola.

– Dá pra ganhar alguma coisa quando a safra é boa e quando não é se espera o próximo ano. Eu, por exemplo, com a uva consegui pagar os estudos das minhas filhas (Vivian e Vanessa) – cita o produtor, que ainda hoje reside (junto com sua esposa Justina) na casa que pertencia a seu bisavó Augusto Riboldi, uma construção que preserva a arquitetura histórica do século 19.

O produtor ensina o segredo de um bom cultivo.

– Tem que fazer o serviço bem feito, com dedicação, amor e conhecimento. E precisa saber a técnica – observa.

‘Há uma alegria no aroma da uva madura, uma paixão pela terra e por tirar dela o sustento’

A esposa Justina Marchesi Riboldi destaca que, para Valter, os parreiras vão muito além de um simples trabalho.

– Não é só uma questão de trabalhar, ele adora os parreirais e os ama. É só ver o cuidado que tem todo o ano, desde a poda, a brotação, o florescer dos cachinhos da uva, o carinho com que cuida para que cresçam até a hora da colheita. Há uma alegria no sabor da uva madura e uma paixão pela terra e por tirar dela o seu sustento – aponta.

Justina revela que Riboldi costuma “padecer com o tempo”.

– A cada vento, a cada trovão, é um sufoco. Sem contar a geada, a cerração, a falta ou o excesso de chuva, os temporais, granizos e tormentas – enumera.

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